O animal satisfeito dorme (Guimarães Rosa)
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sexta-feira, 18 de junho de 2010

A real importancia da Copa do Mundo

Estava conversando no msn com o professor Rodrigo Vicenzi Casarin a respeito de algumas questoes da copa do mundo.

Nao existe nenhum estudo que comprove, segundo o professor Oliver Kawase Seitz, que mega-eventos esportivos, como a Copa do Mundo, sejam projetos interessantes financeiramente para o pais sede das competicoes. Entretanto, acredito que muitas pessoas ou instituicoes ganham dinheiro com mega-eventos como a Copa do Mundo.

Todavia, a importancia da Copa para por ai, talvez tambem tenha alguma importancia do ponto de vista antroposocial, pois na questao dos jogares das equipes a Copa do Mundo tem uma importancia zero.

Inicialmente, me parece que a maior parte das equipes que estao disputando uma Copa do Mundo ja nao expressam uma identidade cultural no seu jogar, e nao credito isso a naturalizacao de estrangeiros em selecoes, vejo outros motivos, enfim, isso ee algo interessante de se notar.

E em ultimo lugar, a Copa do Mundo ee um evento futebolistico de baixissimo nivel, os jogos podem ter uma importancia e emocao porque ee nossa patria que esta em jogo, mas do ponto de vista de um jogar organizado e de alto nivel a competicao deixa muito a desejar. Como disse o professor Rodrigo, muitas das equipes que estao disputando a Copa do Mundo sao piores do que equipes brasileiras que fazem parte da 3 divisao do brasileirao, e concordo plenamente.

Talvez alguns possam alegar que isso ocorre porque nao existe tempo para se treinar uma selecao, mas nao consigo ver as coisas dessa maneira. Primeiro porque o treinador tem um periodo de quase 4 anos de trabalho, muito embora, esse tempo venha a ser mutilado, e em segundo lugar, existe um tempo para se trabalhar antes da Copa e durante a Copa. Agora, o que ocorre ee que muitos treinadores envez de estarem exercitando seus principios de jogo estao colocando os jogadores para correr ou fazer musculacao e depois dizem que nao tem tempo para treinar e nao sei o que la.

A conclusao entao ee: A Copa do Mundo nao traz nada de real sobre a cultura das equipes, ee uma competicao onde existem muitas equipe extremamente fracas (e que mesmo assim se dao bem) e que serve de alguma maneira (que eu nao sei) do ponto de vista social e tambem para outros tantos ganharem algum dinheiro.

Análise Portugal - Costa do Marfim

Texto de Marisa Gomes.

A participação das equipas no Mundial tem sido marcada pela importância de não perder jogos, mesmo que isso se traduza em empates sucessivos e equipas em contenção durante longos períodos de tempo, sobretudo as que possuem menor prestígio no ranking. A primazia defensiva para travar as investidas das equipas adversárias tem sido uma dominante nesta competição, mesmo que se expresse num ganho de 1 ponto, o que se perspectiva como uma riqueza fundamental por parte da grande maioria das equipas. Independentemente da qualidade de jogo, da manifestação ou não do trabalho de um corpo técnico com ideias próprias.

De louvar os treinadores que conseguem fazer das suas equipas uma identidade colectiva na qual estão inseridos, independentemente de reconhecermos que as identidades culturais dos vários países já não é o que era. Vemos equipas que marcaram ao longo da sua evolução uma cultura de jogo que permitia distinguir as equipas mesmo sem camisolas apenas pela forma como jogam (funcionalidade). Assim, treinadores de diferentes países fazem com que as selecções apresentem um futebol que pode identificar-se ou não com a história do país (selecção). Um exemplo concreto é a Argentina, que continua a ter muitas dificuldades em jogar sem bola e por isso, quando a tem, joga sempre com a mesma paixão, seja qual for o resultado. Contudo, falemos do primeiro jogo da nossa selecção.

O jogo começou por evidenciar a Organização Defensiva adversária: fechar a bola no meio campo defensivo, sobretudo com muita proximidade nas zonas centrais do terreno. Em virtude disso, tínhamos muito mais tempo-espaço para circular a bola por trás (menor pressão), pelo eixo da defesa no nosso meio campo. Apesar disso, percebemos que a Costa do Marfim exercia uma maior pressão quando progredíamos com a bola para o seu meio campo. Perante esta dificuldade, Portugal evidenciou um dos seus maiores problemas: a Organização Ofensiva.

Neste contexto começamos por ter a bola nos sectores mais recuados, sem grande reacção da equipa adversária quando isso acontecia. Estabeleceram um perímetro espacial no meio campo, como se não se importassem que tivéssemos a bola no nosso meio campo. Perante isto, circulamos a bola por trás, contudo, não conseguimos fazê-la progredir com qualidade. Porque não circulamos a bola para criar espaços no meio campo adversário, mas sobretudo porque não reconhecemos o lado mais vazio para fazer a bola progredir. De evidenciar que sempre que circulamos a bola pelo sector da defesa não conseguimos fazê-lo com ganho de espaço na sua circulação. Ou seja, tivemos a bola mas não a fizemos andar no sentido contrário à defesa adversária e não lhe imprimimos a velocidade desejável para gerar um desequilíbrio defensivo adversário que nos permitisse progredir com eficácia e objectividade.

Para além disso, a concentração adversária na zona central exigia que jogássemos por fora. Deste modo, a bola ao circular entre os centrais teria de ter um propósito: acelerar a bola (através de passe) pelo lado mais vazio, pelos laterais. Contudo, isto carece de um pressuposto: abertura (amplitude) posicional dos laterais que têm que ter como preocupação fazer a bola progredir para acelerar o jogo. Através do passe. No entanto, os nossos laterais não foram capazes de receber a bola dos centrais com vantagem (espacial-temporal), ou seja, os laterais recebiam a bola quando os adversários já estavam enquadrados sobre a mesma. Daí a grande dificuldade em acelerar o jogo nas linhas mais recuadas. Se não melhorarmos esta sub-dinâmica (intersectorial) vamos ter sempre pouca eficácia contra equipas que jogam concentradas nos espaços mais recuados.

Esta dificuldade teve ainda duas agravantes: a dinâmica posicional do pivot Pedro Mendes e médios interiores, Deco e Raúl Meireles; e a predisposição posicional dos extremos, Ronaldo e Danny.

No decorrer do jogo percebemos que a bola circulava nos sectores mais recuados por termos menos pressão e sobretudo porque sentimos muitas dificuldade em fazer a bola entrar no pivot e médios interiores. Verificamos que havia uma grande mobilidade destes três jogadores quando a bola estava nos centrais. Contudo, não conseguiram criar espaço (através dessa mobilidade) para receberem a bola. Acompanhados pelo adversário não conseguiram receber em condições de fazer a bola progredir com qualidade. Assumindo que estes jogadores são fundamentais na ligação (dita construção) do jogo e não conseguiram ter condições para receberem a bola e fazê-la progredir, estivemos muito condicionados. Face a isto, vimos o Bruno Alves a jogar a bola para os extremos em tentativas frustradas de acelerar o jogo. Simplesmente porque não é sua função ser pivot! Para que tivéssemos capacidade para jogar com jogadores de ligação (pivot e médios interiores), tendo em conta a oposição adversária, tínhamos que:

* privilegiar o jogo posicional da estrutura central do pivot-médios interiores. Ou seja, não podiam estar em constante mobilidade, sem criar espaço face à pressão adversária. Porque nunca conseguiam receber a bola e quando isso acontecia não tínhamos boas condições para a fazer progredir com qualidade, acelerar. O que fez com que o Deco insistisse no drible para o fazer, ganhando algumas faltas mas sem fazer a diferença na qualidade de passe que o caracteriza. Presos a uma mobilidade sem bola, não conseguiram ligar o jogo.


* fazer campo maior na linha da defesa para ganhar espaço para a intervenção funcional do pivot. Como o pivot não conseguiu espaço no meio campo ofensivo para ligar a bola pelos vários corredores e sectores, a linha da defesa deveria criar espaço mais atrás e o Pedro Mendes poderia recuar um pouco mais para ligar o jogo. Assim, desempenharia o seu papel, enaltecendo as suas características e promovendo uma dinâmica de qualidade à bola. Assumindo-se como referência central, teria que ser o pivot da equipa em detrimento do Bruno Alves que passou a desempenhar este papel face às condições existentes. O recuar do Pedro Mendes permitir-nos-ia ganhar espaço na frente, pelas suas escolhas e pela aceleração da bola com mais critério e qualidade porque a sua mobilidade fê-lo passar ao lado das suas funções, a equipa jogou sem uma referência fundamental na ligação da bola e a sua entrada na frente (bem como o Raul e Deco) agravou a concentração defensiva adversária.



A dificuldade de fazer uma circulação da bola de qualidade, acelerando-a pelos espaços mais vazios, deveu-se também ao desempenho dos extremos. A necessidade de ganhar espaço carecia de referências laterais, para ganhar vantagem espacial sobre a concentração defensiva adversária e sobretudo, para se ganhar espaço no meio. Contudo, verificamos que isso não aconteceu devido às relações de lateral-extremo. A sub-dinâmica destes jogadores baseou-se na relação: um dentro e outro fora. O que se traduziu no lateral a receber a bola fora e a precisar de um apoio aberto do extremo (face ao fecho interior dos adversário). Não aconteceu, agravando a falta de espaços dos médios interiores. Tal facto impossibilitou a exploração do espaço interior pelos extremos, quer em drible, quer em passe, já que o Cristiano faz a diagonal para dentro com bola, arrastando consigo muitos defesas, o que permitia ganhar espaço para os colegas e o Simão pede a bola sempre aberto, ganhando muitas das vezes espaço para fazer um passe para o meio com qualidade, direccionado e com sentido. Não conseguimos fazê-lo porque pedíamos a bola no meio e não conseguíamos ter tempo-espaço para jogá-la com critério. A pressão fez com que a bombeássemos para a frente, esperando milagres num Liedson que raramente recebeu uma bola em condições favoráveis, pelo chão e apoiado.

Assim, o modo como a bola chega aos sectores mais avançados não nos permite ser mais eficazes, agravando-se tal ideia com a proximidade com a baliza. Não temos tido capacidade para jogar apoiados, para fazer a bola progredir no último terço com algumas condições favoráveis para não a perdermos. A dinâmica nos sectores mais adiantados não nos favorece. E não é devido aos jogadores. É um problema de funcionalidade. Não temos apoios favoráveis e não fazemos a bola circular-progredir do mesmo modo que noutras zonas do terreno. O que é um contra senso! Uma vez que temos debilidades na finalização, temos que criar condições para que se desenvolva com o mínimo de qualidade. Jogar comprido, bombear bolas para a área não é o caminho eficaz, porque não somos combativos e eficientes no ganho destas bolas. Porque é a zona com maior pressão adversária, porque somos melhores com a bola no chão e no jogo apoiado!

Jogar a bola no último terço do campo é um imperativo para resolver os problemas de finalização. Fazendo meínhos em progressão com a bola para a fazer chegar à baliza, jogando-a com dinâmica para criar espaços, não fazendo sempre um drible para depois dar seguimento à bola, recebendo-a para a fazer jogar (em passe, em drible, em antecipação) dá-lhe uma aceleração exponencial. Desta forma teríamos um Liedson a jogar e uma equipa a ser mais ofensiva.

Com um jogo muito difícil, esperemos que a equipa seja capaz de jogar com uma dinâmica colectiva mais apoiada para acelerar o jogo. Isto porque a Coreia revelou ser uma equipa que nos irá colocar problemas defensivos no seu meio campo, com grande sensibilidade para sair em transição com perigo. A perspectiva para este jogo não pode conter qualquer tipo de facilitismo porque o grau de dificuldade parece ser bastante grande. Boa sorte!

Brasil nao devera passar para as oitavas de finais

Desde que vi o jogo entre Brasil e Coreia do Norte estava querendo fazer uma observacao. Todavia, achei que observacoes como a que me despertou o interesse seriam meio que ridiculas e que so serviriam para considerar o que escrevo babaquice...Contudo, acabei vendo na coluna do prof. Leitao que ele deu seus "pitacos", entao, tomei coragem e resolvi fazer um pequeno comentario do que achei do jogo do Brasil.

Bem, eu observei rapidamente o jogo entre Costa do Marfim e Postugal. Achei a Costa do Marfim uma boa equipe, que tem consciencia na organizacao defensiva e tambem tem uma boa organizacao ofensiva, Portugal tambem me pareceu bem e vejo possibilidades de melhora.

Em relacao ao Brasil, a equipe nao cumpriu seus principios adequadamente nos diferentes momentos de jogo e acredito que preocupa muito.

Poxa, quando Robinho pegava na bola e ia para uma das extremidades se deslocavam de onde fosse 5 jogadores da Coreia somente para marca-lo (estou usando hiperbole) e mesmo assim o Brasil nao conseguia desequilibrar esse defesa ridicula, inferior ao de uma equipe sub-10 do Ibis.

Eu nao acredito que um time que nao conseguiu aproveitar desequilibrios numa defesa totalmente desorganizada como a da Coreia fara algo de proveitoso contra a Costa do Marfim, que usa uma defesa zonal.

Vi uma entrevista de Mourinho onde um jornalista o pergunta se o Porto ira ser o campeao (ou ganhar a partida, enfim nao lembro. Mourinho entao responde mais ou menos assim: Nos somos a melhor equipe, a mais organizada, se o resultado conduzir com a logica do jogo nos ganhamos.

E agora tomo a liberdade para tambem dizer isso, se o resultado conduzir com a logica do jogo a Costa do Marfim ganhara do Brasil neste domingo bem como Portugal na ultima rodada. Ou seja, para mim o Brasil nao passara de fase (no caso para as oitavas de finais).

Agora, ee claro, as coisas podem nao seguir a logica do jogo. Maicon acertar um chute do meio de campo e fazer um gol ou coisas desse tipo, entretanto, repito, caso isso nao ocorra, acredito muito que o Brasil nao passara de fase, inclusive estou torcendo para isso, haja visto, que nao torco (a favor) da a selecao brasileira, bem como tambem nao torco para nenhuma outra selecao, tenho apenas simpaticas com algumas e outras equipes ou treinadores, como sao o caso de Portugal, Africa do Sul, Inglaterra e Argentina.

sábado, 5 de junho de 2010

O falso aprendizado

Saber mais é ser mais, não é repetir o que está nos livros. Dizia o Padre António Vieira: “isso não é saber, é lembrar-se”. (Manuel Sergio)

Responder ao professor o que ele pede, o que ele quer ouvir, ou passar em um exame padronizado a partir de uma visão padronizada, não é um bom modo de se mostrar alguém capaz de construir um mundo melhor. Tenho grandes dúvidas sobre a utilidade da avaliação de performance que coloca em destaque os meios, nunca os fins educacionais. Dou exemplos. A escola ensina que extrair uma raiz quadrada se faz por um procedimento, e então, o aluno repete isso e chega a um resultado, e eis que é dito que ele “aprendeu”. Aprendeu mesmo? E aprendeu o que? Aprendeu a repetir procedimentos! A escola diz que o capitalismo é um sistema de exploração e o aluno, no final do exame, repete isso. Aprendeu? Ora, aprendeu a repetir. Dogmas decorados e procedimentos padronizados, em ciências naturais e humanidades, não me parece ser algo que possa ser elogiado. Pois é o que ocorre: o aluno acertou a dar o resultado da raiz quadrada pedida e acertou no procedimento, o aluno acertou ao dizer que o capitalismo é um regime de exploração, mas em ambos os casos, era possível fazer diferente, usar da imaginação, mas não o fez. Evitou errar. Mas nem todo mundo que acerta tudo é inteligente, muito menos pode ser um projeto de “versão melhorada de nós mesmos”.

Uma raiz quadrada pode ser levada extraída por vários procedimentos. Posso afirmar que há alguns que poderiam ser inventados pelos jovens, e se tal atitude fosse incentivada, eles estariam seguindo a imaginação, a faculdade temida. É certo que o capitalismo é um regime de exploração, mas é possível ver que a palavra “exploração”, no caso, pode ser usada com conotação não pejorativa, e a conotação depende do contexto, do teórico que está definindo o capitalismo etc. Caso não exista imaginação para abordar tais nuances, é difícil dizer que o aluno que repete “o capitalismo é um regime de exploração” aprendeu algo capaz de fazê-lo um bom cidadão do mundo.

O texto acima ee de autoria do filosofo brasileiro Paulo Ghiraldelli Jr.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Férias de si mesmo

O texto abaixo foi retirado do site http://www.marioedianacorso.com, de autoria do psicologo e psicanalista Mario Corso:

Férias de si mesmo

Uma das idéias mais comuns é que somos todos estressados, estaríamos sempre querendo esquecer de nós e da vida que levamos. Nosso sonho é chutar pra cima tudo que nos incomoda e poder ficar vendo a grama crescer. No entanto, se assim conseguimos um alívio do cotidiano, seguimos sendo nós mesmos. Isso é algo a ser levado a sério, afinal, tem gente que nem sai de férias por que sabe que vai junto, sabe que é um chato incorrigível e então o melhor é ficar no trabalho mesmo.
No meu entender, entre as tantas coisas que o futebol proporciona, a melhor é uma legítima, embora breve, férias de si mesmo. Não estou falando da paixão clubística, mas sim de uma de suas possibilidades: a de assistir um jogo com estádio cheio.
Não funciona da mesma maneira para todos, alguns pegam a bandeira e quando saem de casa já não são eles. Outros, de menos fé, precisam entrar no estádio-templo, sentir o ruído e o colorido de seu time para esquecerem que existem. Fundido na multidão, agora um a mais no estádio, restam poucos resquícios da personalidade original, ele é todo camiseta e bandeira. Ele que é todo duro não resiste à charanga, já nem é mais batida de samba, é uma música tribal que lhe fornece a pulsação. No gol ele vai abraçar um irmão ao lado que não conhecia, que agora é íntimo e que talvez nunca mais venha a ver. O seu nome não importa, só importa um clube, uma paixão do qual se pode perguntar tudo menos das razões desse amor. Em cima de uma escolha arbitrária, afinal nada distingue na essência um time do outro, naquele momento toda a sua alma é o destino do clube.
Nosso tempo é tão narcisista, tão individualista, que não percebe as paixões que não cabem nesse ideal. A leitura que fazemos desta vivência coletiva é pobre, seria como uma válvula de escape de formas primitivas do ego soterradas pelo jugo da civilização. Ou seja, ainda é o eu que esta lá, numa forma mais rude, mais arcaica, usando do anonimato da massa para expressar seus piores instintos. Isso não resiste à menor verificação, não há nada de primitivo, de interno, o que acontece é uma possessão, alguém deixa de ser para que aquilo maior exista.
Um domingo de sol no estádio é a negação das crenças do mundo moderno onde o que conta é o indivíduo. Um Maracanã cheio sempre vai ser de alguma forma subversivo. Quando os hooligans se descontrolam (se é que são controlados em algum momento) e saem as ruas quebrando tudo não é um ataque a civilização, é um ataque à cultura do indivíduo, eles querem é seguir sendo massa. Quando a força pública fechou a Mancha Verde (não sem razão diga-se), um dos seus líderes perguntava: o que nós vamos ser agora? Era dali que muitas pessoas tiravam a sua maior significação. As torcidas organizadas são signos da falência das formas tradicionais de dar pertença.
O resultado do jogo importa mas importa menos. Mesmo que venha a sofrer é muito mais do que a sua alma que está sofrendo, é uma alma coletiva e imensa que paira sobre tudo, ele sofre mas ainda está de férias e arrisco dizer que é melhor esse sofrimento do que o da sua vidinha. É uma derrota ou mais do que isso, uma desclassificação, mas ele não esta sozinho tem alguém ao lado que compreende tudo o que ele esta sentindo, que não precisa dizer uma só palavra para seus espíritos estarem em comunhão.
É hora de ir para casa, mas as férias não acabaram, a saída do estádio é ruidosa, é preciso aproveitar os últimos momentos pois já há sinais que a dose pode acabar. Aquilo que o estádio encerrava desborda. Ainda resta o ônibus, ou melhor ainda, uma longa caminhada com uma massa amiga. No trajeto não há mulher que fique sem adjetivos e provocação sem resposta. Mas o gás do estádio vai dissipando, as ruas vão tragando uns e outros e os tantos já são tão poucos. Passo a passo, o próximo começa a tornar-se estranho, as conversas vão rareando e ele já está sozinho. Pior do que isso: ele é ele de novo. Quando chega em casa cansado, a mulher, que é muito sensível a tudo que acontece sem ela, vai lhe dizer que acabou o leite e que o caçula está vomitando. Nosso amigo sente um gelo e sabe que a segunda-feira começou.
Amanhã tem batente, começa com uma reunião sobre qualidade total, e se a memória não falha tem uma palestra para falar como a auto-estima pode mudar a sua vida e lhe ajudar na motivação ao trabalho. Vão lhe dizer que ele estava completamente errado no domingo. Não assim diretamente, mas o que o palestrante vai lhe dizer é que o máximo de valor que alguém pode ter é em ser um indivíduo autoconfiante e auto-suficiente. Embora possam e devam haver esforços solidários o homem se realizaria de verdade é sendo ele mesmo, sendo forte e desenvolvendo o seu estilo pessoal, aquilo que o distinguirá de todos os outros, aquilo pelo qual só ele será lembrado. Nosso amigo é desconfiado, mas volúvel, já pensa numa promessa para o Menino Jesus de Praga, do qual é devoto, lhe ajudar a ser mais autoconfiante.
E se não der certo não faz mal, domingo tem decisão e a copa já esta chegando mesmo. Ele espera se sentir brasileiro como na última copa. Como é bom e como é difícil se sentir brasileiro, só na copa ou uma vez num sete de setembro, ele era criança, levava uma bandeira, mas é confuso não sabe se aconteceu mesmo.

domingo, 30 de maio de 2010

A equipe ee um todo?


Acima esta um trecho da entrevista do professor Paulo Cunha e Silva, onde aborda uma reflexao bastante interessante e que me ajudou, sem duvidas, a sair de um ponto de vista que hoje acho equivocado.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Lauro de Oliveira Lima

Aproveitando rapidamente, ja que fiz uma pequena explanacao sobre Paulo Freire, gostaria tambem de divulgar outro grande educador brasileiro, acredito que um dos maiores, apesar do pouco reconhecimento nacional e internacional, trata-se de Lauro de Oliveira Lima.

Assim como Freire, Lauro ee nordestino, cearense, e a sua obra tem como influenciador maximo a corrente piagetiana.

Ainda nao tive acesso as obras de Lauro, mas do pouco que li achei fantastico.

Ele quebra nosso paradigma do modo de se fazer educacao e proproe novos meios, ee sensacional, necessaria a leitura a qualquer educador.

Para saber um pouco mais sobre ele encontrei esse site:

http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/per10.htm#menu

EE isso...

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Curtinha [2]

To acompanhando rapidamente aqui Gremio 1 x 0 Avai, pelo Campeonato Brasileiro da Serie A.

O Gremio ee outra equipe que para mim aparentemente esta jogando um futebol de alto nivel em relacao as outras equipes importantes do Brasil.

Transicoes ofensivas bem definidas, boa circulacao de bola na o.ofensiva, manutencao de estruturas em momento defensivo, compactacao, existe a preocupacao de fechar os espacos quando o adversario tenta vim pelo meio ou pelas laterais, quando o adversario passa entre as linhas existe a "dobra", muito eficiente na roubada de bola.

Acho que esta bem o Gremio.

EE so isso...

Curtinha: Pequeno adendo

Pensei em fazer esses pequenos textos so para citar uma ou outra coisa que achei interessante em um jogo ou algo do tipo, nao tem no momento grande motivacao mas fica como registro.

Assiste despreocupadamente a algum tempo do ultimo jogo entre Corinthians e Fluminense, pela Campeonato Brasileiro.

Tive a percepcao de que o Corinthians atualmente deve ser uma das equipes brasileiras que apresenta um melhor futebol.

A equipe tinha uma nocao espacial, conseguindo ocupar adequadamente os espacos. Fazia (acho) uma marcacao zonal. Em alguns momentos fazia uma pressao (desorganizada) setorial com os jogadores mais avancados (atacantes, acredito) sobre a defesa adversaria, o que aqui no Brasil significa muito porque a grande maioria das equipes nao conseguem nem reagir a uma pressao desorganizada e ja vao chutando e perdendo a bola.

E ee basicamente isso...

terça-feira, 25 de maio de 2010

Adaptabilidade: A lei dos cemiterios

O mais importante numa equipe de futebol ee o treino. O treino por sua vez ee um processo metodologico de ensino-aprendizagem. Isso quer dizer que todos os conhecimentos relativos a ensino-aprendizagem sao extremamentes importantes para a potencializacao da eficacia do treinamento desportivo, e isso quer dizer que tudo isso ee extremamente importante para o avanco do futebol de alto e baixo nivel.

Agora eu vou falar de algo que nao faco a minima ideia se o que estou falando ee o real, possivelmente minha percepcao sobre esse assunto ee falha e eu estou falando alguma besteira. Mas vamos la...

Ate o presente momente entende-se que a aprendizagem ee um processo em que o individuo assimila determinado conhecimento, posteriormente existe uma acomodacao do determinado conhecimento e terminado esse processo houve uma adaptacao, ou seja, o ciclo considerado ee esse assimilacao-acomodacao-adaptacao.

Apesar de esse ciclo parecer fazer muito sentido e possivelmente isso ser largamente aceito em diversas areas, acho que isso pode nao fazer tanto sentido quanto parece...

A adaptacao nao passa de uma ideia erronea, equivocada. Caso eu estivesse adaptado a algo, eu nao conseguiria me manter caso surgisse o novo, o inesperado, o imprevisivel. Como disse Paulo Freire, a adaptacao sugere a existencia de uma realidade acabada, estatica. O professor Vitor Frade tambem se refere a questao da adaptacao, a total adaptacao, como a lei dos cemiterios.

Quando eu tenho uma pessoa para a qual vou dizer ou explicar algo ou alguma informacao, ee errado pensar que essa pessoa simplesmente ira entender e se adaptar a esse fato. Nao. Ao ser tocada pela informacao a pessoa ira continuar a construcao, por processos internos, da informacao a qual inicialmente lhe foi comunicada. Nao existe adaptacao nisso.

A adaptacao ee algo que nao existe.

E nao vejo prova maior disso do que a existencia da vida humana.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A descoberta guiada e Paulo Freire

Terminei de ler o livro "Extensao ou Comunicacao ?", de Paulo Freire.

Acho que as ideias defendidas, difundidas e aceitas hoje na educacao, atraves do estudos de Freire, tem bastante a acrescentar no estudioso do fenomeno do futebol que pretende aplicar a descoberta guiada como principio balizador da P.T.

Acho que ler as obras de Paulo Freire, Piaget, Chomsky (nao sei se a escrita esta correta), dentre outros educadores e estudiosos da area que se relaciona com a educacao ee extremamente importante para o estudioso do futebol, tanto para o que pretenda trabalhar como tecnico ou como professor academico.

Vale lembrar que boa parte de obras desses e outros autores voce encontra facilmente para download na internet.

Pequeno trecho retirado do livro:

"Todo esforco no sentido da manipulacao do homem para que se adapte a esta realidade, alem de ser cientificamente absurdo, visto que a adaptacao sugere a existencia de uma realidade acabada, estatica e nao criando-se, significa ainda subtrair do homem a sua possibilidade e o seu direito de transformar o mundo."

sábado, 22 de maio de 2010

Mourinho: O especialissimo


"O verdadeiro discípulo é aquele que supera o mestre." (Aristóteles)

"Pobre é o discípulo que não excede o seu mestre." (Leonardo da Vinci)

Hoje Mourinho ganhou institucionalmente a Liga dos Campeoes temporada 2010/2011.

Basicamente nao tem o que comentar, a Inter fez o que sempre faz e ganhou.

Vejo Mourinho como aqueles alienigenas de filmes americanos catastroficos, eles vao para um lugar, sugam todos os recursos daquele lugar e depois vao embora. Com Mourinho ee a mesma coisa. Ele vai para um pais, conquista tudo naquele pais, faz a torcida e o pais todo o adorar e depois vai embora. Vai para outro lugar que o apresente desafios ainda mais dificeis que o lugar anterior, vai para um canto que ele precise aprender mais ainda e que sempre mantenha suas vitorias, essa batalha diaria ee o que move Mourinho. A vitoria move Mourinho, talvez ate o domine, nao sei.

Somente duas coisas que queria deixar registrado ee I) a grande qualidade desses jogadores do Inter e II) a excelente operacionalizacao de todo o time (inclusive de Julio Cesar) em fazer passes/toques a longas distancias.

Parabens Mourinho, voce nao ee especial.... ee muito mais do que simplesmente especial, ee fenomenal.

So para nao perder a piada,poderiamos dar uma nova roupagem a piada do bambu, aquela que a japonesinha fez silvio santos passar a maior vergonha de sua vida...ficaria assim:

Qual ee a diferenca do poste, da posse de bola e da mulher?

- Hi, nao sei.

O poste da a luz em cima, a mulher da a luz embaixo

- E a posse de bola?

Enfia no teu...

A nossa sociedade esta falida: O que voce pode fazer?

Nao tenho duvidas de que a escola hoje nao ee o melhor lugar para aprender. A instituicao escola esta falida, a nossa metodologia de ensino/aprendizagem esta equivocada, o nosso foco na educacao dos alunos esta errado e a forma como esta organizado o conhecimento e como isso esta sendo dado tambem esta errado.

E acredito que ee pelo fato das escolas estarem falidas que nossa sociedade esta falida.

A instituicao escola esta falida ja que nao ensina o principal para as criancas/adolescentes/adultos, e se a escola nao ensina o principal ela serve tanto quanto uma conversa com uma pessoa qualquer na rua, ou seja, talvez muito ou talvez pouco.

O foco da escola nao deve ser de formas medicos, engenheiros ou advogados bem sucedidos que almejam ganhar rios de dinheiro todos os meses e ganhar cada vez mais, isso esta errado. O foco da escola deve ser o de formas homens, seres humanos, pessoas, se a escola nao forma pessoas a escola nao serve para nada.

A metodologia atual de ensino/aprendizagem onde se entende que o aluno ee uma maquina trivial, voce explica ele entende e entao se formou o conhecimento esta errado. Os alunos nao sao maquinas triviais, os alunos sao pessoas, pessoas tem uma complexidade enorme. E alem disso saber nao significa fazer e fazer nao significa saber.

E por fim a tal variabilidade dada no treino de futebol nas criancas ee importante que se de com o conhecimento nas criancas/adolescentes e adultos das escolas, entretanto, entender que apesar dessa variabilidade, existe algo que nao sabemos ainda muito bem explicar que sao os comportamentos que fazem uma crianca preferir ler do que brincar de esconde esconde ou qualquer outra coisa do tipo e isso quer dizer que perceber um expoente talento numa area e o estimular nessa area ee mais importante que continuar o dando uma variabilidade cultural de diversas areas, isso ee um erro.

Bem, talvez isso nao tenha nada haver com futebol, com treinamento, com periodizacao tatica, mas talvez tenha tudo haver.

Porque acima de tudo essa revolucao necessaria no ensino ee precisa somente para entendermos que lidamos com seres humanos, assim como na P.T.

E acima de tudo, se a escola nao esta formando homens, se os pais devido a esse modelo arcaico tambem nao estao formando homens, cabe ao professor da escolinha, ao tecnico a formarem homens.

Mas ai fica a questao mais dificil, como se formar homens?
Acho que um caminho seria entender a etica, tal qual pregava Socrates. Para este o ser humano nao deve ser etico porque teme a um deus ou algo do tipo ou porque teme algo apos a morte, o ser humano deve ser etico porque a etica faz bem ao nosso proprio ser e ao outro. Estimular etica, inteligencia intra pessoal e inter pessoal, conversar sobre as mais diversas coisas do mundo, sempre com atencao, respeito e carinho.

Certa vez meu ex-professor de Geografia contou que sua filha de 7 anos nao estava aceitando vestir roupas repetidas em festas quase em dias consecutivos. Ele entao levou sua filha a um lixao e ficou um bom tempo com ela la, a pequena menina viu gente comendo coisas tiradas do lixo, viu outras criancas como ela em situacoes deploraveis etc. Resultado, o fato dele ter levado a sua filha a um lixao a fez aumentar seu conhecimento sobre a vida e a ver o mundo de uma maneira diferente, e nesse mundo de maneira diferente, nao era necessaria nao repetir vestidos, ja que isso ee uma coisa tao pequena perto de quem nao viva, mas sim sobrevive.

E ee isso que os profissionais que lidam com educacao precisam enxergar.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Periodização táctica: princípios estruturantes e erros metodológicos na sua aplicação no futebol

Recomendacao do artigo do professor Rodrigo Vicenzi Casarin e de Raul Oliveira a respeito da operacionalizacao da Periodizacao Tatico:

Resumo: A periodização táctica é uma metodologia de treino que privilegia a contextualização do treino em função das características, necessidades e princípios de um Modelo de Jogo, ou seja, da organização do jogo orientada pela dimensão tática e sua inter-relação com as outras dimensões do jogo. Desta forma procuramos abordar nesse artigo que para trabalhar dentro destes moldes torna-se importante para além de dominar o seu contexto teórico, estar ciente de alguns riscos em que podemos incorrer ao adoptar esta metodologia.

Unitermos: Periodização táctica. Futebol. Metodologia de treino

Autores:

Rodrigo Vicenzi Casarin*
*Treinador de Futebol e Futsal
Coordenador de Grupo de Estudos - Geffut
**Mestrando em Ciências do Desporto

Raúl Oliveira**
Esp. em Jogos Desportivos Colectivos na U.T.A.D.
Treinador de Futebol e Scout do FC Porto

Link:

http://www.efdeportes.com/efd144/periodizacao-tactica-sua-aplicacao-no-futebol.htm

domingo, 9 de maio de 2010

Como decidimos, como jogamos

Texto publicado por Marisa Gomes em sua coluna no zero.pt, basta ir nos favoritos para encontrar o link.

A necessidade de decidirmos sistematicamente faz com que na maioria das vezes o façamos sem consciência daquilo que estamos a fazer. As decisões mais simples e as actividades mais rotineiras são aquelas que ocupam a maioria do nosso quotidiano e por isso, são as que nos definem. Contudo, não merecem a devida importância da nossa parte porque decidimos e pronto. Sem grandes reflexões, sem uma procura sistemática de interpretação não nos apercebemos da complexidade da nossa mente. No jogo essa complexidade aumenta na mesma proporção que nos ajuda a perceber como decidimos. O que nos permite fazer com que os outros decidam de forma mais eficaz possível.

Analisar um jogo permite-nos reconhecer um padrão de funcionamento das equipas resultante das interacções individuais dos jogadores. Ao observar o Barcelona vemos que se identifica pela forma como gosta de ter e conservar a bola para se superiorizar ao adversário. Do mesmo modo que defende e transita de acordo com esta dominância. Quer ter a bola, quer circulá-la, quer usufruir do prazer de a dominar em todo o terreno. A predisposição dos seus jogadores para a receber é uma característica que se reconhece em todos muito antes da bola chegar. O que faz com que no momento da sua perda procurem ganhá-la o mais rapidamente possível através do jogador mais próximo da bola e da rápida aproximação dos demais. No caso de não a conseguirem recuperar, fecham através de uma oscilação concordante com a bola (e o seu deslocamento). Com uma solidariedade colectiva que se reconhece na proximidade afinada com que o fazem. Fazem-no com uma naturalidade que lhes permite ganhar a bola mais cedo ou mais tarde. E quando isso acontece, procuram jogar com a segurança que lhes permita desfrutar da bola, como que a compensar o tempo que estiveram sem ela. Esta funcionalidade colectiva resulta das interacções individuais dos jogadores. Do modo como decidem. As escolhas convergem para esta funcionalidade colectiva e confere-lhes uma afinidade que emociona os que gostam do bom jogo de futebol. Pelo sincronismo, pela entrega, pelo prazer das escolhas naquilo em que acreditam. No que fazem. No que jogam. O que se manifesta no modo como se sentem uns nos outros.

Apesar da previsibilidade colectiva reconhecemos uma variabilidade na concretização das decisões que os tornam mais eficazes. O jogar em segurança na transição ofensiva tanto acontece através de um passe curto para um apoio mais recuado, como acontece através de um passe em profundidade para o Messi, como também acontece através de um drible no sentido contrário à pressão adversária. A diversidade e criatividade é isto. A concretização do princípio colectivo através da selectividade individual adequada às circunstâncias. Apesar de ser fácil reconhecer os jogadores pelo modo como concretizam as escolhas. O Xavi adora ganhar a bola e conservá-la sem esforço através de um passe ou até de uma simulação de corpo com a mesma facilidade com que emociona com os seus passes em profundidade (com toda a segurança!). A disponibilidade mental para este tipo de decisões resulta de um trabalho, ou seja, é construído. A capacidade de concretização do jogar em segurança é treinada. Apesar de parecer um mistério perceber como conseguem tomar decisões geniais em escassos milisegundos, transcendendo as sensações, instintos e emoções, sabe-se que é possível. Criando soluções que ultrapassam os aparentes limites circunstanciais e que vencem muitos jogos e o seu desenvolvimento. De acordo com Jonah Lehrer, existe uma região no cérebro responsável por isso, o córtex pré-frontal. Segundo este autor, “constitui a única região do cérebro capaz de aprender um princípio abstracto – neste caso os princípios que definem a equipa que referimos anteriormente – e aplicá-lo num contexto invulgar, surgindo com uma solução totalmente inovadora”. Ou seja, a capacidade de criar novos espaços, de promover novas soluções no contexto resulta de uma sentimentalidade (emocionalidade) colectiva. As relações das pessoas assentam nisso. A maior ou menor proximidade define-se no modo como se sentem nos outros e portanto, como crescem individualmente na concretização dos princípios colectivos.

Apesar de parecer simples, a criatividade selectiva (na concretização de um princípio colectivo) resulta quando o treino se processa com a emotividade que o jogo comporta. Ou seja, os problemas e as dificuldades têm que ser sentida para que o jogador tenha capacidade para hierarquizar rapidamente o que fazer e ter capacidade para se pre«ocupar» com o modo como o vai concretizar. Quando os contextos são fechados (só permitem a feitura de uma coisa e não obrigam a ter critério) ou estão cheios de «ruído» de informação (como os gritos: «passa», «remata», «leva a bola») da envolvência isso não é possível. De acordo com os estudos do referido autor, isto faz com que o jogador fique «fechado» ou seja, foca-se em algo que já lhe é dito. Para além de que o obriga a estar mais consciente, impedindo-o de concretizar as suas escolhas de forma mais espontânea, solta e eficaz. O treino faz com que a mente processe as suas escolhas antecipadamente. Quando se joga. Quando se criam contextos nos quais reforçamos projecções da forma como se resolvem os problemas. Quando se orienta para a aquisição inconsciente de uns nos outros. Quando se gera um contexto positivo daquilo que acontece através de uma orientação (contínua) daquilo que se pretende. Daí que aprender custe. Daí que o jogo seja a premissa fundamental para se jogar.

Ainda que se perca algumas vezes, como aconteceu com o Barcelona contra o Inter. Mas as razões não são vazias. Se estivermos atentos, encontramos resposta num livro genial do autor referido anteriormente, Jonah Lehrer: «Como decidimos». Apesar de não falar em jogo de forma directa, ensina-nos a jogar e como ensinar a jogar. As razões da derrota do Barcelona contra o Inter também não se encontram de forma objectiva. É um desafio encontrá-las. Em contrapartida, vou tentar dar-lhe a resposta no próximo artigo.

Trecho da entrevista de Marisa Gomes

trecho da entrevista da professora marisa gomes.

Ou seja, o talento ee sobretudo construcao, ou sobretudo, tem muito de construcao.
O talento ee uma predisposicao que se vai desenvolvendo ao longo do tempo porque o talento pode ter uma predisposicao mas se nao se manifestar, nao ee talento. Vemos muitos jogadores que acabam por ter boas capacidades mas que com o tempo deixam de as manifestar. Se deixam de as manifestar, deixam de ser talento. Agora, uma das caracteristicas que o talento tem de ter ee a singularidade. Sabemos e reconhecemos que aquilo que se faz com que um seja melhor que o outro ee qualquer coisa que ele tem que os outros nao tem. Um central para ser melhor que o outro tem que ter qualquer coisa que o outro nao tem. O talento marca-se pela singularidade. E essa singularidade nao ee igual para todos. A singularidade de um ponta de lanca que tenho ee totalmente diferente da de outro. No entanto, sao dois talentos diferente e ee ai que nos temos de gerir. Para que? Para promover um meio e uma evolucao, uma formacao que permita que cada um destes talentos se desenvolva. Porque dentro da posicao, do futebol e do jogo existe a necessidade de se manifestar e de se interagir de determinadas formas. Agora, o treinador ee que tem de ter esse trabalho. Num meio como o jogo de futebol, isso ee determinante.

E se partir do principio que nao tem muito a afazer, no fundo nao esta a fazer nada, porque nao acredita naquilo que faz.
Pior do que nao estar a fazer nada, esta a estragar! Esta a estragar! Mas isso tambem acontece no contrario porque vemos miudos em escaloes mais baixos que tinham um potencial enorme e que ate o conseguem manifestar por diversas razoes mas depois acabam por desaparecer. Porque? Porque temos de ver a evolucao do jogador como a evolucao das especies. A analogia que eu faco ee essa. EE que as especies vao evoluindo ao longo do tempo mas esse talento tem que ter determinadas condicoes para se manifestar. E nos sabemos que a extincao de varios animais aconteceu quase sempre devido a uma questao: o estarem com determinadas caracteristicas demasiado adaptadas as coisas (ao contexto). Entao, a minima variabilidade desapareceram. Acontece o mesmo com o talento no futebol. Se o jogador for um talento e o manifestar apenas como regularidade, ao mudar o contexto (e as vezes basta mudar de treinador) e mudando de solicitacoes, o jogador acaba por morrer.

O talento tem de ser uma realidade potencial, porque se desenvolve, ee uma realidade plural, porque se expressa de formas diversas e alem disso, tem de contemplar a criatividade, nao pode ser um talento formatado...
A criatividade tem de fazer parte do talento. Eu tenho muitas duvidas em relacao aqueles miudos que jogam apenas num registo. Falo em miudos porque em cada idade a manifestacao do talento ee diferente, face as caracteristicas, face as debilidades, face a maturacao, face a tudo isso. O que ee importante ee distinguir neles qualquer coisa que eles tem e que com o crescimento nao desaparece. Por isso ee que as vezes vemos miudos que nas escolas e infantis sao muito rapidos e que se dizem talentos (e que suportam o jogo nisso), suportando o jogo nisso e com o crescimento a velocidade relativiza-se e deixam de ser talentos. Portanto, o talento ee uma predisposicao que tem de se manifestar. Agora, se sou um talento com determinadas caracteristicas preciso de condicoes para o desenvolver. Imagina: se sou um animal adaptado para estar em climas quentes e se vou para um clima frio, acabo por morrer. EE a mesma coisa com os jogadores e as vezes basta transitar de um escalao para o outro e sobretudo, mudar de treinador. Porque os talentos nao se restringem aos jogadores ee tambem ao treinador. O treinador deve reconhecer a singularidade dos jogadores, fazer com que as relacoes entre os jogadores se manifestem de forma a que esse talento se manifeste e cresca! (E potencie a equipe). Devido aquilo que digo aos meus miudos: "nao adianta ter talento", ele tem de se mostrar, tem de ser emergente.
O potencial ee isto mesmo: ee aquilo que estamos a contar que aconteca porque sabemos que existe qualquer coisa. Mas se nao emergir, se nao se expressar, nao tem qualquer tipo de validade.

Tem bases para isso... dentro do jogo ou dentro das linguas... (exatamente...dentro de tudo...) Dentro de determinada qualidade no caso do jogo, variar dentro do jogo... o problema ee que muitas vezes confundem-se as coisas...
Costumo dizer o seguinte: nos, humanos, somos expressao daquilo que somos - o lado das caracteristicas, da genetica, do biologico - e depois, em cada passo que a gente da, em cada passo mesmo, vamos mapeando. Nos somos um mapa daquilo que vivemos e o que vivemos nao ee so o que ee sentido pelo corpo. Por exemplo, eu nunca fui as Maldivdas mas tenha uma representacao do que sao as Maldivas. Agora, se eu for la, a minha representacao das Maldivas vai mudar. O jogo ee a mesma coisa.

O jogo tem que ser mapeado e o exercicio se calhar...
O processo de formacao tem que ser um mapeamento. Agora, o mapeamento sobretudo ate aos 14 anos tem que ser num sentido de privilegiar uma variedade cultural. O que ee que ee isto? (Cultural dentro do jogo) Sem duvida! A variabilidade cultural... o jogo tem que ser uma variabilidade cultural.

Exato... eu penso que muitas das vezes a tarefa mais complexa e mais dificl de um treinador ee procurar, atraves dos exercicios escusar-se. Ou seja, evitar ao maximo atraves dos exercicios que vai criando, para aqulo que pretende, participar no treino e a intervencao dele fazer-se quase so com exercicios, quase nao tem necessidade de intervir, deixa-lo jogar...
Mas eu acho que o treinador tem de intervir durante o treino. Agora, o jogo, o exercicio tem que ser entendido como um nicho ecologico. Isto ee, temos um conjunto de jogadores e vamos promover um nicho ecologico que permita desenvolver esta variabilidade cultural, que ee o nosso jogo. Quando digo jogo ee o jogo que resulta dos jogadores estarem em ligacao entre eles. Depois, os exercicios tem que ser estimuladores de qualquer coisa. Quando estive com os mais pequeninos, miudos com 4/5 anos e adorava trabalhar com eles. Porque!? Porque a minha intervencao no jogo tinha que ser atraves de jogo, atraves da bola. E aprendi imenso com isso...

...e se calhar ai a intervencao do treinador passa por faze-los vivenciar, e se calhar nem tanto no intervir no sentido da oralidade de... (nao pode ser atraves da oralidade...) ee eles fazerem e criarem propensoes e determinados contextos que lhes permitam vivenciar aqulo que ele pretende e dai a complexidade de criar exercicios...
Isso das propensoes tem de ser de cima a baixo. Tem que ser sempre e a todos os niveis. So que com esses miudos os conceitos sao nossos e como os miudos (como ja dissemos) nao tem capacidade de abstracao, isso ee otimo porque so fazendo acontecer ee que a coisa resulta...

EE otimo, mas acaba por ser uma faca de dois gumes, porque tanto pode dar para o otimo como pode dar para o pessimo, depende do contexto a que eles forem submetidos desde idades muito precoces. La esta a absorcao deles ee menos seletiva.
EE otimo para um treinador de qualidade. Porque eu prefiro trabalhar com aqueles miudos. Porque? Porque nao tenho que desmontar conceitos. (sao mais genuinos) Sao mais plasticos. Costumo dizer que os miudos pequeninos sao mais plasticos porque nao sao mais adaptaveis. Eu punha miudos de 4/5 anos a jogar com duas balizas laterais e havia circulacao de bola. Agora, nunca falei em circulacao de bola porque eles nem sequer sabiam o que era a palavra circulacao. Mas fazia, jogavam, viviam. Do mesmo modo que para intervir nesse jogo, tinha de ser consoante aquilo que eu queria. Por exemplo, se queria que eles desaglomerassem. A aglomeracao nestes miudos resulta de que?! Da unica coisa concreta que existe para eles. A unica coisa que existe concreta no jogo ee a bola... e o jogo para eles ee a bola. E portanto, eles jogam. Como? Com a bola. Eles nao se ligam aos colegas, nem ao adversario e ate a baliza as vezes nao existe para eles. E por isso, este lado da inexistencia de conceitos ee que os torna tao plasticos. E quando falo em conceitos nao ee so em termos conceituais. Entendo conceito em termos conceituais e tambem em termos corpus, na capacidade de realizacao.

O mapear desses conceitos passa pela interiorizacao pela corporalizacao desse... da somatizacao.
Exatamente! A prova disso sao os miudos pequeninos de 4/5 anos. Essa mapeacao dos conceitos nao resulta so da cabeca para os pes, tambem resulta dos pes para a cabeca. Sao esses miudos que pomos a jogar desde tras. Temos ee que faze-lo colocando a bola em determinadas condicoes. Falavamos um bocadinho dos contextos e por exemplo, nesses miudos tinha alguns que nao gostavam de jogar. E nao gostavam de jogar porque?! Porque tinham mais dificuldades. O que ee que eu fazia?! Em condicoes em que ele estava quase sempre sozinho, porque nao lhe passavam a bola e interagia pouco no jogo, metia a bola nele, sobreestimulava-o, fazia com que o contexto fosse propicio a sua participacao. Ainda que ele inicialmente cometesse muitos erros. Mas com o tempo, com a continuidade, as coisas acabam por emergir.

Ha uma necessidade de os fazer sentir ainda mais, porque eles ja o tem, e para substituir, por assim dizer, eles tem...
...Eu nao queria que ele substituisse, queria que ele tivesse mais essa opcao. Como que ee que tive que fazer?! Tive que fazer duas coisas.
Primeira: dificultar-lhe o puxar a bola sempre para dentro, ou seja, as vezes em que o fazia, nalgumas perdia a bola e isso comportava algum risco. Do mesmo modo que fazia com que houvesse sempre um apoio na lateral. Se quero dizer ao meu jogador para ela abrir mais vezes por fora e nao ha um extremo viavel para receber a bola, este contexto ee propicio!? Nao ee propicio. Portanto, isto aqui ee decisivo. Um treinador tem que ser um alquimista! Para criar estes contextos. Mas para criar os contextos ee preciso saber os objetivos. EE para tornar propicio a que? A que?! (Uma concepcao que ee quantificada a priori, e nao.) E tendo em conta a evolucao do processo. Porque o lado emergente nao ee so do jogador. EE do jogador, da equipe e ao longo do proprio processo. Existem varios planos ou varios niveis desta emergencia. A realidade ee isso mesmo. A realidade ee aquilo que emerge mas aquilo que emerge ee tambem aquilo que a gente consegue ver dessa realidade e portanto, o jogo ee isso tudo.
Eu vou ver um jogo e tu vais ver o mesmo jogo. Para mim ee uma coisa e para ti ee outra. Face a que? Face ao teu mapeamento e face ao meu.

Muitas vezes, no treino sinto que o miudo vai a fazer uma coisa fantastica, mas no entanto, nao saiu. Nao sai, mas aquilo, acho que ee... tem que se dar valor. (exato) Porque aquilo mais tarde vai sair. E ha pormenores desse tipo que se calhar ninguem detecta, que sao mesmo fundamentais, e ee isso que os vai distinguir. Mesmo eles errando, se calhar se dessemos um reforco negativo, ele nunca mais o iria fazer.
Ou entao tens de fazer o seguinte: tens de promover um contexto em que isso aconteca muitas vezes. Criar um contexto. Por isso ee que falo em alquimia porque tenho, por exemplo, um ponta de lanca cuja singularidade ee a sua capacidade de rematar a baliza. Esse ponta de lanca... (ele nao tem de perder isso, ele tem ee que ganhar outras coisas) Exatamente.
Agora, como ee que eu vou fazer? Ponho tres defesas, ponho dois defesas, ponho a jogar contra a equipe mais forte ou na equipe mais forte?! Dependo do objetivo, depende da necessidade dele e depende de como a gente vai revelar isso no desenvolvimento coletivo. E este lado individual e coletivo nao se separam. Sao comuns. Sao comuns! Se estiverem contextualizados sao a mesma coisa. Este individual nunca deixa de ser coletivo nem este coletivo deixa de ser individual. Por isso ee que falamos da variabilidade cultural. As pessoas dizem: ah, tem que ser criativo ou tem de ser diferente. Nao tem que ser diferente tem que ser ee uma variabilidade cultural. Tem que haver um lado aberto para haver um crescimento do treinador. Porque o treinador tem de aprender com os jogadores. (exatamente). E os jogadores tem que aprender com o treinador. Como ee que eles aprendem com o treinador? Primeiro, ee atraves do exercicio. Faze-lo de modo a provocar determinadas coisas e leva-lo a ter sucesso e faze-lo creser com isso, mais cedo ou mais tarde. E depois, ter capacidade para ver se nao esta a acontecer isto, na propria competicao ou em situacoes de treino, e ajustar. EE saber, por exemplo, que o meu pivot nao esta a ter sucesso porque esta a ir muito para frente e entao, meto um pivot, que naturalmente tendo a jogar mais atras. Atraves desta escolha e nesta situacao estou a influenciar nao so este jogador mas e sobretudo o desenvolvimento coletivo.

Trecho da entrevista de Paulo Cunha e Silva

trecho da entrevista do professor paulo cunha e silva

Mas um senhor que se chama Poincare disse que isso seria impossivel, porque os sistemas astrologicos sao tambem, tao sensiveis as condicoes iniciais e essa sensibilidade depende do fato de haver sempre mais do que tres variaveis. Sempre que ha mais do que tres variaveis a capacidade que elas tem de se implicar e condicionar a evolucao das outras ee muito grande. Nos temos sempre a ideia de que quando aparece o terceiro elemento, esse terceiro introduz o caos no sistema, mesmo sob o ponto de vista relacional, as pessoas falam no menage a tros, no terceiro elemento ou no amante como se fosse a figura que viesse introduzir o caos na relacao, porque de fato ele faz com que aquele sistema que estava a funcionar bem, numa logica de bipolaridade, comece agora a funcionar numa logica que deixa de ser controlavel, nao ee? Agora, os meios de modelizacao contemporaneos, de metamodelizacao se quiser, permitem entender o comportamento desses sistemas caoticos, porque justamente nao vivem angustiados na circunstancia de descobrirem uma variavel muito precisa, ou seja, vivem satisfeitos com a possibilidade das variaveis serem variaveis flutuantes, digamos assim, de nao serem precisas. (por isso ee que vivem e progridem, digamos assim... Contemplam a criatividade.)

Contudo, este numero tres pode ter alguma pertinencia (porque o numero tres, isso ee que eu nao percebo)... tres elementos em interacao. Para contemplar a criatividade se calhar so a partir do terceiro ee que isso se torna mais evidente.
Sim, claro, porque senao um sistema bipolar, ou seja, um sistema que se faz com dois elementos, ee um sistema que tende ate autoanular-se, porque um pode ser o elemento mais e o outro menos e, portanto, se nao ha a introducao do terceiro elemento, a capacidade de evolucao do sistema pode ficar condicionada e a criatividade do sistema tambem muito condicionada. Um sistema criativo ee um sistema que tem a capacidade de incorporar um novo, nao sucumbir perante o novo. EE por isso que a nossa organizacao biologica ee fractal nesse sentido porque ela... repare, o coracao por exemplo, ee considerado um orgao regular nao ee? O coracao bate e nos esperamos que ele bata com alguma regularidade. A pior coisa que alguem gostaria de sentir ee uma fibrilacao ventricular que ee quando o coracao comeca a bater de forma descoordenada, uma situacao de disritmia neste caso, porque mesmo nos fenomenos de taquicardia o coracao bate com alguma regularidade. Agora, as novas analises, nomeadamente as analises espectrais dizem que todos os intervalos entre os QRS, que os intervalos entre aquelas pontas do eletrocardiograma, sao diferentes, nao ha nenhum intervalo identico, portanto o coracao esta numa situacao de protodisritmia permanente.
E qual ee a vantagem disso? A vantagem disso ee ele estar preparado em todas as circunstancias, em todos os minutos para incorporar uma situacao diferente, uma adversidade qualquer, interna ou externa, medo ou uma coisa qualquer, portanto, tem uma flexibilidade e uma capacidade de incorporar o novo muito maior do que aquela que teria se tudo tivesse sido programado, por exemplo, (na fronteira do caos) Sim na fronteira do caos, e tambem ee assim que funciona o sistema imunologico, tem tambem essa capacidade... se o sistema imunologico tivesse sido condicionado para fabricar anticorpos para todos os antigenios que havia naquele momento, quando surgisse um novo virus ele sucumbiria e nos morriamos imediatamente. E, portanto, como tem esta capacidade de sintetizar para uma franja e para uma zona fluida, ele consegue perceber que ha qualquer coisa que nao ee bem aquilo, mas que ee parecido com aquilo e, portanto, tem essa capacidade de se adaptar.

O professor falou ha pouco de uma coisa, la esta, talvez o confronto va levar a necessidade de superacao e da tal divergencia. O professor tambem defende que a relacao entre a acao e a percepcao, que ee mediada pela corpo, ee fundamental e, se calhar, nessa oposicao ai esta um bom exemplo desse processo de cognicao por assim dizer...
Eu ate defendo uma coisa um bocado mais atrevida e radical que ee o seguinte: eu defendo que a percepcao ee ja acao, ou seja, antes de fazermos ja estamos a fazer. No momento em que se percebe, ja se comeca a agir de fato. Alias ha dados engracados (Alain Berthoz recentemente lancou um livro que vem precisamente confirmar isso, mesmo alguns autores como por exemplo os do livro "Mente Corporea" evidenciam isso mesmo, e acho que a extrapolacao desses dados para o desporto em geral e para o futebol em particular, ee muito pertinente. La esta, vai de encontro a uma inteligencia corporea) Pois, isso... ha dados que eu acho, que ainda nao estao confirmados mas que sao um bocadinho arrepiantes, que dizem o seguinte: na via motora ha dois neuronios, um primeiro neuronio cujo corpo celular esta na circunvolucao frontal ascendente, que ee o neuronio da vontade e o segundo neuronio, o neuronio motor que esta no corno anterior da medula e que ee o neuronio cujo axonio, vem ate ao musculo proporcionar a contracao. E portanto, o normal ee que primeiro exista a vontade da pessoa de se mexer e depois a pessoa se mexa, nao ee? Portanto, que o primeiro neuronio se estimule e que envie informacao para o segundo neuronio, que depois se estimula e envia a ordem ate ao musculo. Ha dados estranhissimos que revelam que o segundo neuronio se pode estimular antes do primeiro. Portanto como se a acao fosse anterior ao pensamento da acao e a vontade da acao, esta a perceber? Havia uma especie de antecipacao da acao por parte dos musculos. Isto ee engracado e ee perturbante, e vem inverter todos os paradigmas da neurofisiologia.

E se calhar em contextos de grande imprevisibilidade na tomada de decisao sao esses mecanismos que vao explicar porque ee que um jogador toma uma determinada decisao, e a importancia de educar esse mesmo processo...
Educar, digamos, essa inteligencia periferica, educar essa (inteligencia descentralizada) descentralizada, ee uma boa expressao.

E ee isso mesmo que nos tentamos evidenciar com o conceito de somatizacao, nao somente o processo de informacao passar pelo cerebro e pela mente, sem dissociar do corpo, mas o fato do musculo e as estruturas relacionadas com o movimento estarem implicadas nessa tomada de decisao, por vezes nao consciente.
Nao ee que eles nao estivessem sempre implicados, mas nos olhamos para eles como implicados passivos, ou seja, eles fazem aquilo que os outros mandam fazer. Agora, sera muito perturbante se se vier a confirmar que eles fazem por iniciativa propria e portanto sao decisoes ativos e que depois convencem os outros que deviam mandar neles, que a decisao foi (ou que nos entendemos que deviamos mandar neles...) E portanto, isso ee curioso e ee perturbante e vem inverter todos os paradigmas de uma relacao. (implica uma reorganizacao acerca do que ee a cognicao...) Do que ee cognicao, do que ee acao, do que ee percepcao, e esta logica linear e este principio de causalidade entre percepcao e acao passaria a ser um bocadinho invertido.

E la esta, vai de encontro aquela ideia de uma inteligencia corporea...
Sim, de uma inteligencia corporea como se houvesse essa deslocalizacao, como se o corpo tivesse uma especie de consciencia de si que nao se fica so nos sistemas motores, vai ate ao funcionamento celular quase, como se houvesse uma delegacao, ou seja, os sistemas inteligentes do corpo delegam nos pequenos fragmentos uma franja de capacidade de decisao muito importante. Isso ate ee importante na sua tese antropossociologica, porque ee um modelo interessante ate para a organizacao das proprias sociedades e, sobretudo, para a fundamentacao de uma teoria geral da delegacao. Faz sentido delegar se as partes tiverem a capacidade de se autoorganizarem. Claro que isso depois vai justificar todas as descentralizacoes, ate as politicas.

Face a essa inteligencia corporea, e face a essa inteligencia especifica podemos requisitar para o futebol, por assim dizer, uma inteligencia especifica, mas plural simultaneamente.
Sim, mas tambem nao devemos ser assim tao totalizantes nesse sentido. Eu falei tambem a esse respeito numa especie de dois corpos, um corpo branco que chamei protocorpo, e depois um corpo pintado que seria mais um corpo aculturado. Portanto, o corpo motor, nesse sentido, seria uma especie de protocorpo, um corpo antes do corpo, e o corpo desportivo seria um corpo mais pos-moderno, no sentido de que ee um corpo feito da sobreposicao de varios fragmentos nao ee? Cada modalidade tem a sua sintaxe e a sua gramatica, mas usa o mesmo alfabeto, ee uma especie de alfabeto motor comum. A ortografia do futebol ee diferente da ortografia do andebol, apesar do alfabeto motor ser comum a varias modalidades motoras. Agora, reivindicar para o futebol uma radicalidade absoluta parece-me exagerado.

Nem pode sair da dimensao antropologica, ou seja, partindo do pressuposto da tal dimensao antropologica, da possibilidade de, face aquilo que ee o homem, se calhar, o tipo de conhecimento e o tipo de tomada de decisao implicados no futebol, ate pelos conflitos que tem em termos de hominizacao, vai implicar uma inteligencia diferente das outras modalidades e que ee diferente, se calhar, de jogo para jogo, de equipe para equipe, da forma de jogar de cada equipe...
Nao. Com certeza que ee diferente, agora o que estou a dizer ee que o futebol partilha com as outras modalidades esse mesmo corpo branco, esse mesmo protocorpo.

La este a tal categorizacao da inteligencia tambem nao pode ser estanque...
Claro. Ate podemos dizer que esse protocorpo que ee um corpo pre-cultural, ee um corpo... nao quero dizer sem inteligencia, mas ee um corpo com uma inteligencia que nao foi culturalizada. Qual ee a distincao fundamental ente inteligencia e a cultura? EE essa, passa justamente por ai.
A cultura ee a capacidade de convocarmos a memoria de uma forma inteligente, enquanto que a inteligencia pode dispensar a memoria, a inteligencia ee a capacidade de resolvermos uma situacao, mas podemos resolve-la quase sem memoria.

Estivemos a falar da possibilidade das proprias estruturas que efetuam movimentos anteciparem, por assim dizer, as estruturas que processam a informacao. Pode-se dizer que a relacao entre estes pode ser considerada uma somatizacao de um saber?
Nas varias fases e nos varios momentos ha sempre uma determinada consciencia corporal, ou seja, apesar das representacoes corporais acontecerem tendencialmente no cortex cerebral, ha uma especie de consciencia periferica, se quiser dizer, e essa consciencia periferica nao pode ser suprimida.

A educabilidade entre a inteligencia mais periferica e a inteligencia mais central desenvolve-se tanto mais, quanto mais precocemente for estimulado...
Isso acho que si, seguramente, nao ee?

E aqui o papel do treino e a qualidade do treino acaba por ser determinante e, se calhar o sentido do treino, nao so no sentido da hipertrofia...
Podemos dizer que metaforicamente, o treino obriga o cerebro a descer, ou seja, a vir ate a periferia. O treino ee uma especie de qualquer coisa que obriga o cerebro a articular-se melhor com as extremidades, com a periferia.

Este fato da importancia da precocidade que ee uma coisa que nos sugerimos, desde que alicercada numa determinada qualidade do processo, ee possivel porque? Pela maior plasticidade que existe durante este periodo, na infancia, ou nao? Ou ee tambem pelo fato de haver um enraizar comportamentos que ee menos notorio, ou seja, ha um corpo mais branco, mais um protocorpo na infancia do que propriamente na idade mais adulta.
Claro, portanto, aquele ditado popular que diz que burro velho nao aprende linguas tambem ee isto e ee um bocadinho pertinente nao ee? (mas nao aprende por que se calhar tambem ja aprendeu algumas) Tambem, e porque ee menos plastico, ou seja, o burro velho tem menos plasticidade que o mais novo nesse sentido e portanto tem tambem uma maior dificuldade em incorporar o novo, e tambem porque a sua capacidade de espanto, espanto aqui num sentido antropossociologico ou ate biologico, um espanto biologico, ou seja, as pessoas mais velhas tem uma capacidade menor para se espantarem com aquilo que veem, porque o novo tem uma capacidade menor em condiciona-las.

Em todo este entendimento da inteligencia que temos vindo a falar tem subjacente uma complexidade enorme, que se vai repercutir em termos de alteracoes tanto ao nivel das estruturas efetoras do movimento como a nivel cerebral. Ate que ponto pode haver alteracao da representatividade cerebral pela maior ou menor influencia do treino?
Com certeza, ou seja, o treino ee um mediador da relacao do corpo com o exterior. E o que ee o treino? EE a capacidade de... enfim sob o ponto de vista da fisiologia do exercicio, de a lesao se transformar em adaptacao. EE a capacidade de o obrar a reorganizacao. Eu tenho contestado um conceito da fisiologia que ee a ideia da homeostasia, e tenho dito que o treino nao ee um sistema homeostatico. Porque? Porque depois do treino nunca se volta ao ponto de partida. Se se voltasse ao ponto de partida nao havia crescimento e portanto nao havia enriquecimento, nao havia educacao e o treino nao fazia sentido. E portanto, o objetivo do treino ee forcar e levar um pouco mais longe para que essa alteracao se transforme em adaptacao e que quando o corpo for solicitado em situacoes formativas do tipo anterior, esteja mais preparado para lhes responder do que estaria anteriormente.

Um dos paradigmas que acho que ee a prova, mais do que evidente de que o treino pode fazer muito, ou pode atuar sob a plasticidade dos individuos ee o caso daqueles individuos que nascem sem os membros inferiores ou sem os membros superiores, por exemplo, e que, fruto das necessidades e do processo de aculturacao ganham uma funcionalidade tal que conseguem mesmo sem maos superar as limitacoes que tem...
Ha pouco falamos naquela questao da delegacao, de que o cerebro delega e o cerebro mais eficaz ee aquele que teria uma maior capacidade de delegacao. Neste caso havia uma especie de delegacao (de suplencia) e de uma delegacao supletiva como disse nos membros que existiam e que estavam disponiveis para a acao.

Esta inteligencia, este saber que se vai adquirindo ao longo de um processo que ee complexo e ao longo do tempo atraves da acao e da vivenciacao, e do passar pelas situacoes, implica um percurso individual mas nao isolado, que ee unico. Entendemos nos assim que se trata, de um processo ecogenetico, uma construcao individual ecogenetica, onde sao muitas as variaveis ou as dimensoes que estao a interagir.

Que ate mesmo os genes sao permeaveis a tais influencias...
Essa ideia da epigenetica parece-me mais precisa. EE transmissibilidade daquilo ate que o proprio Dawkins chama de memes, que sao estruturas que estariam fora do DNA e fora do nucleo celular e que eram estruturas transmissiveis a propria celula no momento de divisao, no momento de fecundacao.

Agora, para terminar, e pegando numa das ideias principais que fui retendo na entrevista, o fato do treino, comecando precocemente, talvez ate por aquilo que fomos dizendo, levar a tal descentralizacao, ou a tal cerebralizacao e aculturacao do musculo e tambem, simultaneamente a corporalizacao do cerebro, no sentido em que ha uma alteracao da representatividade cerebral, e mais do que isso, a solidificacao num determinado regime motor, se quisermos, especifico, a consolidacao das relacoes entre estes que ee o mais importante...
Sim, ee aquela historia de que o cerebro delega, mas depois a periferia tambem adquire um pouco mais de responsabilidade, ee um sistema de "governence" biologico, ou seja o cerebro promove essa delegacao para a periferia mas a periferia tem que assumir as suas responsabilidades, e assumir as suas responsabilidades ee assumir a sua capacidade prestativa, ou seja, ee assumir a sua capacidade intelectual (se manifestar enquanto parte de um todo...) e de parte inteligente e auto-suficiente. Mais uma vez regressamos aos fractais. Os fractais, de fato, sao fragmentos que transportam dentro de si as qualidades do todo, ou seja, sao fragmentos em que o todo delegou as suas caracteristicas. Sao fragmentos que falam do todo melhor do que o todo fala de si,

E nao se justifica a ideia de hierarquia, mas sim de uma rede, de uma teia...
De uma sinergia, pelo contrario de uma deshierarquia, no sentido que nao ha, que nao ee uma anarquia, mas ee uma deshierarquia.

Trecho da entrevista de Luisa Estriga

trecho da entrevista da professora luisa estriga

Ou se ha alguma coisa que indique... (ate que ponto a especificidade do processo de treino se relaciona com a maior ou menor incidencia de lesoes nos desportistas)
Sobre isto quero dizer-te que talvez eu nao tenha entendido bem a tua questao. Mas para esclarecer, a especificidade do treino tem tudo a ver com as patologias especificas de cada modalidade, particularmente no que diz respeito as de sobrecarga (overuse). Mas se quiseres ir mais longe tambem interfere, e muito, na re(abilitacao) desportiva pos lesao (pos alta medica). Ha um outro dominio que decorre da especificidade da carga inerente ao proprio jogo. E ha algumas diferencas, por exemplo, entre homens e mulheres relativamente a incidencia lesional. Incidencia ee o numero de lesoes por 1000 horas de pratica ou por 1000 horas de jogo. Deste ponto de vista nao ha grandes diferencas entre homens e mulheres, em especial quando estudadas as competicoes internacionais mais importantes (seniores). Mas existem diferencas metodologicas e amostrais que limitam a comparacao entre estudos. Por exemplo, ee dificil comparar um campeonato regional com o mais alto nivel de pratica, fundamentalmente por causa do modelo de jogo, estamos a falar de modelo de jogo e modelo(s) de atleta(s) completamente diferentes.
Aquilo que me parece ee, que de fato ha aqui uma especificidade de um padrao lesional associado a especificidade de uma determinada modalidade, indiscutivelmente. No caso do handebol ha lesoes que sao especificas da pratica da modalidade, tem a ver com os padroes motores. No caso da lesao do cruzado, as mulheres lesionam-se 4 a 10 vezes mais que os homens a praticar a mesma modalidade. E lesionam-se sem oposicao, quando o andebol ee considerado um desporto de contato; e ee por ser um desporto de contato e de invasao que se encontra uma taxa de lesoes traumaticas superior a outras modalidades. Mas ee um fato que a lesao mais grave ee a lesao do cruzado, o que leva muitas vezes ao abandono da carreira desportiva de atletas muito jovens, estamos a falar de por vezes potenciais talentos com 16, 17, 18, 19 anos. O fato da lesao ocorrer usualmente sem contato e quase sempre em jogo, numa mudanca de direcao e enquanto estao em determinadas posicoes, ou seja quando estao em determinadas funcoes em jogo, levanta-nos algumas questoes. Porque so em jogo? Porque naquela idade? Isto tem a ver com a especificidade, no meu ponto de vista. Agora quer isto dizer que as preparamos mal, ate aquela fase em que a exigencia defensiva aumenta? Porque ainda que faca uma mudanca de direcao sem contato, eu fiz uma mudanca de direcao para ultrapassar a defesa, se isso traduz-se num aumento de velocidade, se traduz num superior afastamento dos membros inferiores, que aumenta o stress do ligamento cruzado ee outra questao. E que ee que os autores tem verificado? Neste momento, qual a grande duvida? Ainda nao ee claro, quais sao os fatores de risco, ou seja, ha muitos fatores de risco e parece que eles interagem. Quando se estuda um unico fator, por exemplo, a forca muscular, nao se encontra relacao entre os niveis de forca, ou os desequilibrios entre os quadricipetes e isquio tibiais e a ocorrencia de lesao, quer dizer que provavelmente existem varios fatores que se influenciam uns aos outros e depois nao se conseguem isolar; nao se consegue perceber qual o fator determinante, sao um conjunto de fatores que possivelmente interagem. Se calhar ha pessoas que estao mais em risco que outras. O que a mim me parece claro ee, que ha idades de risco ee, ha posicoes de risco, posicoes que tem a ver com as funcoes de jogo, com a especificidade, do que ee o jogo.

E essas funcoes e essas posicoes, se calhar, sao tanto mais de risco quanto menos especificidade for contemplada no processo de treino.
Agora, qual a grande preocupacao dos primeiros anos da formacao? EE a prevencao. EE olhar para o treino e pensar, como ee que eu posso prevenir. As orientacoes focam a importancia do treino na melhoria dos niveis de forca e correcao de desequilibrios, mas num contexto especifico. Mas mais importante ee o controle neuromuscular e a proprioceptividade. Relativamente as mulheres, por questoes anatomicas, elas fazem as mudancas de direcao e recepcoes de forma diferente do homem, o que leva os autores a sugerir que ee nas situacoes especificas, dinamicas e contextualizadas, o problema do alinhamento dos membros inferiores deve ser corrigido.
Nao sei se me estas a entender... (estou). E entao, comecou-se por se fazer isto em idade senior, tendo-se observado uma diminuicao da incidencia lesional no LCA. Eu tenho algumas duvidas sobre a forma como estes estudos tem sido feitos, mas as orientacoes atuais apontam para que se comece a fazer prevencao antes desta idade, durante a formacao, antes de chegarem a "fase critica", em idade e escalao (modelo de jogo).

Ou seja, vai de encontro com aquilo que eu procuro defender, que a especificidade deve de fato ser um requisito do treino, mas nao do treino so a nivel do rendimento superior, tambem na formacao, ai se calhar ee tanto mais fundamental e faz cada vez mais sentido, visto que os miudos e as miudas, cada vez comecam mais cedo a procurar a pratica formal das modalidades, e nesse sentido a necessidade de prevenir, porque as lesoes quando surgem, pelo que disse, sao aos 17, 18, 19 anos, quando elas...
Ja passaram alguns anos ate chegar la...

Ou seja, ha uma habituacao, e uma adaptacao do corpo que nao ee talvez a mais ajustada, para a especificidade da atividade que eles vao desempenhar.
Para entenderes isso, eu teria de entrar em algumas questoes do processo de treino, nos escaloes de formacao, que eu acho que estao desajustados, o tem a ver com a especificidade. Eu acho que se treina pouco e pouco especifico, nao ee em funcao da equipe senior, do que sao os padroes seniores, mas ee o especifico que ee o proprio jogo daquela idade. Eles chegam ao jogo e tem uma exigencia diferente daquele que tem no treino, mas isso nao ee relevante porque estamos a afalar de infantis e inicadas, quando ainda nao tem grandes dificuldades em ultrapassar a oposicao que encontram no jogo formal. As raparigas nao tem grande dificuldade e isso acab por passar despercebido aos treinadores, mas quando chegam as juvenis e juniores ai sim ee diferente, os problemas que se lhe apresentam sao diferentes. (Ou seja, depreende-se ai que...) Se calhar ha uma ma preparacao para os problemas de jogo, mais que tudo.

Alem de para o proprio jogo, tambem para o jogo em termos de gerais para a competicao, sobretudo. O que eu depreendo dai ee que se calhar o treino, alem de nao contemplar uma determinada especificidade de jogo ou de um jogar de uma determinada equipe para o qual, se calhar os jovens ja deviam ser preparados, tambem nao contemplam, pelo que tenho visto ao longo da pesquisa que tenho feito na minha monografia, que ee a competicao que ee fundamental na formacao dos miudos. Ou seja, o treino desde as idades mais precoces deve contemplar, para fazer sentido a tal logica de especificidade, a competicao. E se calhar ee esse o grande defice que acontece na formacao e se calhar os proprios quadros competitivos serem desajustados, porque de um momento para o outro ha um choque, por assim dizer, para o qual nao estao preparados, e no entanto quando passam a seniores tem de se confrontar com eles.
Eu acho que no andebol, nos temos uma estrutura de competicao desajustada, nao ee uma questao de quadro competitivo, ee o proprio jogo que nao esta ajustado aos 10, 12 anos, ou seja, a logica de ter um jogo formal nos 10, 11 e 13 anos. Nos bambis aos 10 anos jogam 5x5, otimo trabalho, muito bem. Quando passam dos bambis para os infantis jogam 7x7.
Tu deste didatica aqui, e deves perceber a dificuldade que ee para os miudos de 10 anos jogar 7x7. O que ee que acontece, ainda por cima tens treinadores que fazem sistema defensivo 6:0, entao, tu "no outro lado" basta teres um ou outro que remate mais ou menos de primeiro linha e resolvem este problema e como tal vao "devagar, devagarinho" ate ao ataque. E quando ha contra ataque, ee so uma ou duas que sao mais evoluidas para aquele nivel e que resolvem o jogo. Normalmente o jogo de infantis, erradamente, ee muito suportado em duas ou tres, todas as outras (e exclui todas as outras). E mesmo assim, se formos ver a frequencia com que fazem mudanca de direcao e para que lado a fazem, ee pequena. E depois tens o treino que ee muito pouco especifico. Quando elas chegam as seniores, aos juniores seniores, como sao escaloes mais evoluidos, e entao nas seniores, e muitas das miudam lesionam-se. Sao miudas que jogam nos juniores e como sao melhores juniores passam rapidamente a jogar nas seniores. Como temos poucas praticantes em Portugal, as melhores passam la para cima. Entao elas tem de aprender a resolver problemas que nao estavam habituadas, e ja nao ee so aqui que se coloca o problema, ee que tudo o resto, ee que isto ee um todo nao ee? Se tem a ver com isso, porque ee que elas nao se lesionaram antes disso?
Algumas delas tiveram a menarca aos 12 anos. Lesionam-se aos 18 porque? (Porque ee ai que tem as exigencias...) as exigencias competitivas. EE uma especificidade diferente. O jogo ee diferente, e eu nao tenho duvidas que ee.
Porque apanham seniores que jogam ha muitos anos, que tem muitos anos de pratica e que lhe tiram, por exemplo o lado forte. No andebol, lembraste das fintas? Fazes finta para o lado de forte, as miudas fazem finta para o lado de "Fora" na formacao e resolvem aquilo facilmente e habituam-se, mecanizam aquilo. Chegam as seniores nao tem esse lado forte, porque elas tiram, e agora ir para o outro lado? Claramente, nao estao preparadas para isso e basta um toque que elas ficam desequilibradas. Ha muitas lesoes que tem a ver com isso.

Em relacao aquilo que falou, la esta, o corpo ee um todo, e esse processo de treino ao longo de anos durante a formacao, se calhar desajustado, vai se repercutir a esse nivel, no todo tambem. Ate que ponto esta plasticidade que o treino induz numa adaptabilidade, ate que ponto, isto ee tanto mais possivel quanto a especificidade for contemplada, e de que forma isso se revela tanto no cerebro como no musculo como nas relacoes entre ambos, que talvez seja o mais importante.
Isso ee uma pergunta pertinente, mas de dificil resposta. Do ponto de vista muscular, e conheces o biodex. Do ponto de vista muscular, temos a dizer que se os isquiotibiais forem fracos comparativamente aos quadricipetes o risco de lesao do cruzado esta aumentado. Entao ee de esperar que com a pratica as atletas chegassem aos 17, 18 anos mais desequilibradas, que isso fosse um fator. Estas a acompanhar meu raciocinio? Nos verificamos, que elas sao mais desequilibradas nos primeiros anos e quando entram. Quer dizer, que elas se tornam mais equilibradas com a pratica. Ainda assim tem valores abaixo dos valores de referencia, mas todas elas tem. Todas elas tem niveis, o racio entre isquiotibiais e quadricipetes inferior aquilo que ee proposto na literatura. Fator de risco todas tem, mas ee curioso que so algumas se lesionam, e ee quando estao a fazer determinada funcao (la esta, porque se calhar ha uma adaptacao mecanica...); agora, os musculos sao muito importantes. Sao muito importantes na estabilizacao do joelho, sao determinantes para tudo. Os musculos do trem inferior, e olhando so para esses, e esses sao importantes na estabilizacao ativa do joelho para a funcao, daquelas posicoes. Eles falham, falha a parte muscular e falha a parte ligamentar. Quer dizer que eles sao expostos a algo, que ocorre no jogo que eu nao consigo reproduzir no treino, ou mais que isso, nao consigo prevenir no treino. O que levanta serias questoes, mesmo do ponto de vista muscular. Se isso ee tao importante, tambem ao nivel de propriocepcao. Se depois ha algo que tem a ver com o inconsciente, que tem a ver com o como ee que eu decido, a percepcao que eu tenho da situacao e como ee que eu decido, naturalmente que deve ter. Fadiga nao ee, porque elas lesionam-se em qualquer altura, nao se lesionam no final do jogo nem no final... (final das epocas, nem... ) Nao! Nao ha uma relacao entre uma fadiga e isto. Ha provavelmente um problema de controle muscular, neuromuscular. Hoje a grande orientacao esta no controle neuromuscular.

Dai a necessidade de entender o musculo e os tecidos que sustentam o movimento nao somente como efetores, mas se calhar como estruturas inteligentes, por assim dizer. Que conseguem captar o contexto e adaptar-se, em funcao da experiencia motora.
EE nessa logica que faz sentido que, eles estejam a investir neste momento na prevencao nos escaloes de formacao nessa questao inteligente. Um dos fatores, que parece contribuir ee o desalinhamento do membro inferior. Porque ee que ele acontece num determinado jogo, num determinado contexto em funcao de determinada posicao e nao aconteceu antes? Quer dizer que nao treinei especificamente, a especificidade suficiente para o tipo de defesa que me vai aparecer nos seniores. Mas, porque ee isto aconteceu precisamente naquela idade, mais naquele lugar. Quer dizer que falhou alguma coisa, e ee o controlo neuromuscular, ee. A que nivel, ninguem sabe muito bem.

Uma vez que lida mais com jovens do sexo feminino se calhar nao tem tanta percepcao, mas provavelmente tambem tem, porque ve o andebol masculino, tambem tem um filho percebe o que ee que se passa com ele. O fato, de cada vez menos as vivencias dos miudos irem no sentido da variabilidade e do enriquecimento do repertorio motor, por exemplo quando andavam descalcos, brincavam na rua saltavam, ate que ponto isto tambem ser um aspecto importante ou pode levar a uma maior prevencao, por uma educabilidade desses neutrotransmissores e das estruturas proprioceptivas. Ate que ponto isto, pode interferir na maior propensao de lesoes, a diminuicao destas vivencias?
No caso feminino ee claro, mas nos nao temos muitos padroes de comparacao vou-te explicar porque. Porque o boom da participacao da mulher no desporto ee mais recente. (Pois, por isso ee que se calhar nao ha uma percepcao tao grande). EE dificil, mas parece que o numero de lesoes nao tem vindo a aumentar. Hoube um boom de lesoes, particularmente quando se comecaram a ver mais jovens na pratica desportiva. Entendes o que eu estou a dizer? (Se calhar houve um descurar do treino...) EE dificil estar a avaliar isso, mas eu nao tenho duvidas que essas vivencias motoras enriquecedoras, e de alguma forma tambem de exploracao motora que as criancas hoje nao tem, de descoberta, nao tem essa possibilidade, eu acho que ee limitador e tanto mais limitador, quanto mais eles entram num processo de especializacao, de mecanizacao de determinadas solucoes, para um jogo que exige outro tipo de solucoes, que ee isso que eu acho que acontece.

La esta, especializacao versus especificidade.
EE diferente, eu concordo contigo, ou seja, nos incorremos numa especializacao sim, e o maior problema nao ee ser especializacao, ee o tipo de especializacao, que ee a mecanizacao de um padrao motor que nao corresponde aquilo que depois acontece no jogo. Eu fazer "esquerda-direita-esquerda" sem oposicao, ensinar isto quando chego ao jogo, e tenho um defensor em que o esquerda-direita-esquerda nao serve (ee esterilizar o jogo).
EE isso que acontece, ee isso que tem vindo a acontecer, e ee o que tens no andebol, e eu nao sei o que vai acontecer nos proximos anos, mas o jogo de andebol esta a evoluir muito ao mais alto nivel. Ou seja, ee um jogo mais rapido, maior numero de decisoes, menos tempo para decidir, menos jogadores envolvidos nas decisoes, isso ee o que esta a acontecer ultimamente. Se iso se vai traduzir num maior numero de lesoes, por exemplo? Se calhar vai. Mas so vai se o treino nao preparar para aquele tipo de jogo que esta a haver agora.
Agora, as raparigas ee possivel que tenha a ver com isto, ee possivel.
Depois ha muitas coisas curiosas, ha uma atleta da selecao nacional que rompeu o cruzado, e eu perguntava-lhe: "mas porque achas que rompeste o cruzado?" e ela: "na verdade eu nao entendo bem, porque foi na altura que eu estava mais forte fisicamente, foi na altura que fazia mais musculacao". Humm!
Mais musculacao ee, curioso, ela fazia mais musculacao, mas nao quer dizer que aquela musculacao que ela fazia tivesse, transfere direto para as exigencias, antes pelo contrario. Antes pelo contrario. Se calhar aquela musculacao, que ee descontextualizada da pratica, induziu exatamente o contrario, menos estabilizacao do joelho. (E nao ee so isso)... ate alteracao no padrao muscular, provavelmente, estou eu a especular.

E ate das proprias estruturas perceptivas do movimento. Porque o msuculo hipertrofiou, mas nao o educou, ou educou de uma forma contraproducente, para aquilo que era desejado, para a especificidade que ela...
Pode ate ter induzido em desequilibrios. Elementos de destabilizacao a nivel do joelho, por ter musculado musculos que ela nao (alteracoes biomecanicas que...) Exatamente! Isto ee, neste momento a grande maioria da investigacao centra-se nas questoes neuromusculares, tambem da prevencao de lesoes a nivel do cruzado. Isto ee muito especulativo.

Mas contudo, implica um entendimento diferente daquilo que se tem vindo a fazer.
Claramente, e acho que tambem ee um salto, hoje em dia os grandes investigadores nesta area da prevencao dizerem, que a prevencao tem de ser acima de tudo, e que esta educacao motora, ou seja, que esta educacao motora, esta educacao neuromuscular se quiseres deve contar desde o inicio. Mas, eu so consigo corrigir isto, repara, eu so consigo corrigir isto, e isto ee tanto mais importante quanto maior ee a velocidade, porque quando elas sao mais novinhas, elas fazem isso a menor velocidade, o problema ee quando aumenta a velocidade como deves imaginar.

E a interferencia contextual da maior oposicao.
Exatamente, por isso quanto mais cedo eu comecar este reeducacao, com estas preocupacoes do ponto de vista neuromuscular, e da orientacao do membro inferior na realizacao de determinadas situacoes. Mas, eu tambem so consigo corrigir se for dentro daquela especificidade que ocorre no jogo. Se eu nao estiver a fazer, a corrigir o alinhamento do membro numa situacao em que ela esta na posicao frente a baliza, nao faz muito sentido.

Podemos entao, desta conversa, ate ao momento, ter pelo menos tres pontos-chave, que talvez entronquem naquilo que eu defendo ser a especificidade precoce, ou seja, ja contemplada desde muito cedo que sao: a necessidade de competicao no treino, ou de uma estrutura analoga aquela que eles vao encontrar no jogo, contemplar isso nos treinos; a necessidade de variabilidade em termos de reportorio motor em especificidade e em especificidade em funcao nao so do jogo que se pretende para aquela equipe, mas tambem da propria estrutura, do padrao motor por assim dizer, daquela modalidade, ou sejam variar dentro daquele jogo; e a necessidade de educar o musculo, atendendo tambem aos aspectos neuromotores, nao so em termos de atrofia, da carga, do treino convencional, por assim dizer.
EE como tu dizes, o mais importante nisto tudo ee a especificidade. E tem a ver com as especificidades do jogo de andebol, e a especificidade do jogo engloba isso, ee variabilidade, ee competicao ee uma competicao contextualizada. Ela ee especifica, sendo especifica (especificas da modalidade, e do jogo daquela equipe, mais do que...) ok, eu percebo o que estas a dizer, mas eu, nao tenho duvidas que a competicao ee um fator determinante, ate por questoes motivacionais, e isto tem... Nao ee preciso mais, se eu juntar a esta especificidade, se quiseres do ponto de vista dos problemas que o jogo coloca, e da resolucao juntando com competicao, obviamente que, a especificidade passa por isto tudo.

Em termos da especificidade, esta especificidade implica um entendimento do jogo como algo plural, ou seja, eu tenho esta equipe, face a estes jogadores eu posso pretender este tipo de jogar, se tiver outra equipe e tiver outro tipo de jogadores ou outro treinador pode ter outra concepcao de jogo completamente diferente, logo um concepcao de treino diferente, logo ee um entendimento plura. Agora isto vai implicar tambem, diferentes tipos de inteligencias corporeas, la esta a educacao do musculo e dos receptores, dos fusos neuromuscular, dos complexos de golgi, tudo isso, uma educacao diferente para aquele jogar. O que vai tambem implicar diferentes anatomias para aquele jogar. Porque se eu tenho um jogo, no caso do andebol, que aposta mais em mudancas de direcao, que aposta mais no confronto e isto pode determinar os tipos de comportamentos por parte da equipe. Vou querer que os meus jogadores, tenham uma adaptabilidade tal, que lhes permita dar a resposta a essas exigencias da mesma forma que isso, se calhar vai ter implicacoes biomecanicas, ou seja, a especificidade vai permitir contemplar inteligencias diferentes, para aquele jogar implica um conhecimento diferente para se jogar aquele jogo e isso vai ter repercussoes na anatomia dos proprios jogadores, que vai variar se calhar em funcao das posicoes que ocupam em campo e tambem da propria biomecanica dos proprios jogadores.

Trecho da entrevista de Leandro Massada

Em termos deste tipo de vivencias, nao so do futebol, nomeadamente o futebol de rua, mas um conjunto de atividades que dantes se viam nas ruas, estao cada vez mais a eclipsar-se. E ha uma tendencia para as brincadeiras serem cada vez mais pre-formatadas nos miudos e apelarem menos a criatividade e a diversidade de estimulos, podendo-os levar no futuro a serem mais fechados. Isto pode tender a uma generalizacao da sociedade?

Nao sei. Mas isso que voce esta a dizer ee verdade e outra coisa que tambem ee homogeneizadora ee a comunicacao social com estimulos poderosissimos como, o "branding". Acho que ate mais limitante do que os miudos nao brincarem nas ruas ee a influencia espantosa das marcas. E portanto os miudos querem todos comprar o mesmo tipo de sapatilhas, beberem os mesmos iorgutes..., mas ao mesmo tempo ha uma outra realidade que ee a internet que veio abrir outro tipo de horizontes eu nao sei... esta a ver, essas sao as tais coisas que eu nao sei.

De que forma ee que isto (o mal da pressa) pode afetar as criancas desde muito novas?

Afeta logo as criancas atraves da insuficiente disponibilizacao dos pais. Eu acho que ee o pior problema. Quer dizer, a crianca que ainda nao esta nessa fase, "da pressa", percebe que os pais estao. E agora sao ambos profissionais enquanto que ha duas geracoes nao eram, portanto, ha problemas. Os pais nao estao em casa, os pais tem muito menos tempo para serem verdadeiramente exemplares, os pais chegam a casa cansadissimos e, de fato, houve uma substituicao dos pais pela escola e pelos tempos de acompanhamento extra-escolar.

E ha potencial patologico (no mal da pressa)?

Isso ha, penso que sim mas, ee a tal coisa, nao sei... Se voce ler os tipos bons da area das neurociencias eles dizem que sim, com as expressoes mais variadas; quer dizer, nao sei se ate com expressoes que podem ser classificadas como doenca, mas com alteracoes gravissimas de cansaco, de perda da atencao, fibromialgias, hiperatividade, ... (os problemas de ansiedade dos proprios miudos) que sao no fundo, semelhantes aos dos pais, eles tem-nos por um aspecto mimetico, nao ee que eles tenham razoes objetivas para isso. Os miudos mantem, apesar de tudo, uma boa performance, mas nao ee ai que esta o problema; o problema ee muito mais eles verem a vida "desgracada" dos pais e dos avos. Os avos agora tambem ja trabalham...


Uma vez que o futebol requisita uma funcionalidade mais ancestral, no sentido daquilo que estivemos a falar, dai que se torne pertinente que os miudos comecarem (quanto mais cedo melhor) uma sentimentalidade maior ao objeto com que contacta, como o caso da bola, uma gestualidade mais refinada se calhar quanto mais precocemente...
... quanto mais precoce melhor para os miudos, porque ai a questao ee a intensidade e a repeticao das cargas. A intensidade e a repeticao das cargas se forem feitas de acordo com a idade cronologica que o individuo tem, esses podem ser estimulados relativamente cedo. O grande problema que nos podiamos por aqui ee, se o excesso de intensidade das cargas tem um efeito deleterio. Nos sabemos que as cargas fisiologicas estimulam o crescimento. Por exemplo, num caso particular ee que o excesso de cargas determina muitas vezes o atraso do crescimento. Ora, portanto, em relacao aos estimulos, quanto mais precocemente a especie for estimulada, melhor e mais rapidamente desenvolve qualidades motoras e qualidades cerebrais. Agora, o estimulo deve estar dependente da intensidade das cargas, da qualidade das cargas e da resposta que o individuo tem em relacao a essas cargas. No caso da atividade motora, ela, neste caso, ee fundamental que elas nao sejam de tal maneira intensas que levem ao patologico. E o patologico ee quando nos estamos a fazer muitas "asneiras", as quais aparecem com claudicacao, com dor. A propria natureza diz, que nos estavamos a fazer mal. Agora, nos miudos, desde que os estimulos sejam feitos de acordo com a idade cronologica que eles apresentem, melhor; melhor ee para eles.

Esta adaptabilidade, pode-se dizer que ee um saber corporeo por assim dizer, ou somatizado, por todo o corpo? Uma inteligencia corporal por assim dizer. O jogador de futebol, no caso, mais do que processar informacao ao nivel do cerebro processa ao nivel do corpo, no sentido de soma, de uma globalidade nao so ca em cima, mas de todo o corpo, inclusive a inteligencia dos musculos, o musculo como um orgao pensante e nao so como um orgao efetor de movimento.
As nossas estruturas podem-se tornar em alguns "mini-cerebros", claro que se pode por isso, porque nos, nas nossas estruturas tendinosas, esqueleticas e miotendinosas fundamentalmente, musculo, tensao e o proprio osso, temos sensores que estao ligados ao cerebro, a proprioceptividade, sensores ligados a tensao, ligados ao movimento, que nos indicam em que posicao espacial estao determinadas areas. Nos temos esses sensores nos ligamentos, temos esses sensores nas estruturas musculares, quase que nos podemos dizer que temos milhoes de "minicerebros". Ora, se essas estruturas estiverem a ser estimuladas muito rapidamente e se forem estimuladas precocemente e se foram continuamente estimuladas, esses "minicerebros" que estao, por exemplo, ligados a proprioceptividade, isto ee, a forma como o individuo faz o movimento, a cinematica do movimento. Nos sabemos que os miudos que treinam desde muito jovens, essa proprioceptividade, esses sensores que estao ligados nas articulacoes, nos musculos e nos tendoes, essa proprioceptividade onde nao ha participacao consciente, ee uma participacao inconsciente e que nos informa momentaneamente esses milhoes de cerebros ao nosso cerebro, ao sistema nervoso central, ao computador central e que nos informa da posicao espacial da perna, do joelho, do tornozelo, da anca, e que nos informa se o pulmao esta a respirar ou se nao esta a respirar, se o coracao bate ou nao esta a bater, e na qual nos nao temos participacao consciente e ai, a hiperparticipacao desses milhoes de "minicerebros" permite, por exemplo, em termos de adaptabilidade desportiva, diminuir drasticamente o numero de lesoes. E se permite diminuir drasticamente o numero de lesoes, em termos de motricidade, em termos motores, praticamente se o musculo for estimulado pode quase transformar-se em "minicerebros" e em estimulos quase como que reflexos.

O professor falou agora na adocao do bipedismo que, sendo uma caracteristica muito peculiar da nossa especie, representa para o futebol algumas incompatibilidades em termos anatomicos.
Em toda a nossa especie, em toda a nossa gestualidade, se nos verificamos a historia dos animais, ee uma historia de milhoes ou bilhoes de anos, e a nossa historia ee uma historia de 300.000 anos. Portanto, o bipedismo, conforme nos o aceitamos habitualmente, o perfeito, apesar de ter uma historia mais ou menos dentro de 1.3 milhoes de anos, em que apareceram os primeiros Homos e depois ee que comecaram a colocar-se de pe, com a extensao progressiva da anca, com a extensao progressiva do joelhom so acerca de 300.000 anos ee que o Homo Sapiens Erectus, conforme nos o vemos agora, ee que houve a sua expressao na sua magnitude. Portanto, nos somos um animal ainda relativamente imperfeito em tudo, e todas essas articulacoes que sofreram grandes modificacoes para obtermos esta nova posicao espacial, este padrao locomotor, sao articulacoes que sofrem e degeneram com muito maior facilidade. Essa degenerescencia, nao tem nada a ver com o futebol, tem a ver com duas caracteristicas fundamentais. Entao ai entram outra vez a funcionalidade, e a genetica. Ha individuos com padroes geneticos de degenerescencia mais precoce do que outros, por exemplo a artrose nas varias articulacoes tem uma certa influencia genetica, e que depois essa influencia podera ser marcada ou mais ampliada pela funcionalidade, isto ee, a partir do momento em que comecam a haver as alteracoes degenerativas no nosso corpo, e como nos comecamos a envelhecer, a partir do momento em que nascemos, mas normalmente a nossa degenerescencia comeca a partir dos trinta anos de idade, as articulacoes que forem hiper solicitadas, quer seja no futebol, quer seja em qualquer modalidade desportiva, quer seja em qualquer atividade funcional, trabalhadores com atividades profissionais manuais relativamente intensas, essas articulacoes degeneram com muito maior facilidade, e aqui o aspecto de praticantes de futebol, o dizer que o futebol ee uma atividade que possa ou nao implicar o envelhecimento ou a degenerescencia com maior precocidade do que outra atividade fisica.... (agora, ha maior propensao no caso ao nivel da pelvis por exemplo, em que ee preciso ter cuidado no treino) logico. Ha determinadas areas que ee quase, como em termos motores ha uma maior concentracao de forcas conforme a funcao que o individuo realiza. Se o individuo fizer contorcionias da coluna como os halterofilistas ou os lutadores de luta greco romana ha alteracoes na coluna vertebral, na dorso lombar. Se for andebolista, o salta e remata ou qualquer modalidade desportiva que implique o salto e remate sendo o membro superior que remata e o membro inferior que apoia e que salta e, portanto, no futebol o gesto desportivo e a concentracao de esforcos mecanicos atua fundamentalmente na coluna dorso lombar cujo movimento de torcao, devido aos deslocamentos, as fintas, os remates e os saltos, o cabeceamento que ee muito agressivo e nao so ao cerebro pelos microtraumatismos cerebrais que provoca o impacto da bola na cabeca pode provocar lesoes no cerebro.
Microlesoes, e discute-se neste momento se no futebolista nao podera surgir um quadro semelhante ao boxeur, que ee a encefalopatia cronica, devido aos cabeceamentos a velocidades elevadas em objetos como a bola pesada, mas a area de maior concentracao de forcas esta relacionada com o gesto desportivo, no caso do futebol o remate, o salto, o deslocamento lateral, os movimentos de torcao que provocam hipersolicitacao da coluna dorso lombar e numa das zonas mais hipersolicitadas onde aqueles apresentam alteracoes degenerativas mais marcadas, a zona da pelvis, fundamentalmente nas coxo-femurais, a artrose do joelho que esta demonstrado nos futebolistas devido as alteracoes biomecanicas que o desporto condiciona nos futebolistas que determina que o joelho sofra demasiadas forcas e a artrose no futebolista ee muito mais frequente do que nas outras atividades profissionais e a nivel do pe, fundamentalmente do primeiro dedo, o halux rigido ee muito frequente, portanto ha areas localizadas, neste caso e em todos os casos de atividades desportivas tem a ver com a concentracao de esforcos mecanicos depende do gesto que a modalidade solicita.

Falou agora do treino cada vez mais mecanico. Isso pode levar a um futebol cada vez mais homogeneizado?
EE aquilo que se verifica, se voce ja reparar nisso, nas equipes do centro da europa, a suica, os suicos, nao ee aquela mistura com outros individuos brasileiros mas se voce vir os suicos, os austriacos e no norte da europa, os noruegueses e os suecos, o futebol esta muito mecanizado. Porque? Porque os miudos nao fazem o treino da proprioceptividade, a habilidade motora nao ee desenvolvida, e eles fazem o desenvolvimento de tecnicasm em especial a recepcao do passe, do cabeceamento, que sao tecnicas monotonas e aplicados a todos eles. A individualidade tambem tem um aspecto cultural, a individualidade ee mais caracteristica dos latinos, mas mesmo que haja aspectos culturais, se houvesse individuos talentosos, que os ha de certeza absoluta, e se esses fossem estimulados, como sao, por exemplo, estimulados no Brasil, pelas condicoes sociais, o brincar na rua, de certeza absoluta, mesmo no centro da Europa, ou no norte da europa, nos teriamos de certeza absoluta o aparecimento de talentos. Cada vez estao mais a rariar e o que se verifica ee que em portugal ee que, nas cidades onde os miudos deixaram de ir para a rua, as escolas tem agora mais dificuldades em encontrar talentos, e onde se encontra mais talentos ainda ee na zona de lisboa onde tem influencia dos miudos da raca africana que continuam a brincar na rua, na zona da amadora, toda aquela zona ali nos encontramos, que ee um feudo de miudos que vao para as escolas do benfica e do sporting e que sao miudos que geneticamente, tem alguma carga motora e que depois sao desenvolvidas pela atividade que os miudos fazem na rua.