O animal satisfeito dorme (Guimarães Rosa)
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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Jogo e Modelação: relação de interdependência

Jogo e Modelação, dois conceitos tão específicos e que parecem, em simultâneo, tão distantes. Será que ao invés desta distancia existe alguma relação entre eles?

Vários autores tem-se debruçado sobre este aspecto. Por exemplo, Marina refere que "Treinar é modelar através dum projeto (...)", sendo que através do processo de treino podemos intervir ao nível da qualidade de jogo da equipe e mais concretamente dos jogadores.

Portanto, Modelar e Treinar parecem ser consideradas como aspectos similares. Assim, tendo noção que existe uma relação de dependência entre treino e competição, Garganta refere que, o como se quer jogar é o como se deve treinar, dai o processo de treino desportivo ter como objetivo primaria desenvolver a prestação desportiva de forma a esta ser aplicada na competição. Competição esta que serve também de avaliação/comparação do processo na sua globalidade.

Teodorescu refere que o elemento primário de que deriva o futebol, enquanto jogo desportivo coletivo, é o jogo sendo que este deve constituir, em treino, o núcleo de todo o processo. A partir destas palavras não é pois de estranhar que Guilherme Oliveira refira que se o jogo é o espelho exeqüível do treino então, para o jogo ser jogo, o treino não pode ser mais nada senão jogo.

Portanto, a idéia de jogo terá um papel importante na forma de treinar e quanto mais coerente for, mais lógica poderá ter o processo de treino, sendo que o nível de prestação do praticante ou da equipe é o espelho do como se treina.

Assim, de acordo com Garganta, com o treino devera procurar-se que as transferências das aquisições sejam máximas, sendo que a questão que se coloca é como perspectivar o jogo em situação de treino.

Uma possível resposta é nos dada por Guilherme Oliveira, que refere o principio da especificidade como solução para este tipo de situação.

Para o autor, mas em 1991, só se poderá chamar especificidade a especificidade se existir um conjunto de relações entre varias componentes: tatico-tecnicas, psico-cognitivas, físicas e coordenativas.

Desta forma, sendo o futebol uma modalidade com características muito especificas também a preparação para a competição - entenda-se, o treino - terá de ter essa especificidade. No fundo, interligando a especificidade e o jogo que se pretende atingir, este só o consegue ser efetivamente se esta (a especificidade) estiver presente de forma constante em situação de treino.

Assim, em função destes dados, pensamos poder referir que o jogo tem influencia na modelação, assim como ao invés a modelação também terá influencias no jogo que se pretende criar.

Se a forma como queremos jogar é a forma como devemos treinar então a modelação terá um papel preponderante nessa construção. Assim, pela especificidade do treino em futebol, preconize-se que se treine os aspectos que se reportam diretamente ao jogo para que na competição, estes apareçam como sendo algo que caracterize a forma de jogar da equipe.

Se no jogo ha necessidades físicas, técnicas, táticas, psicológicas, elas são conseqüência de uma determinada organização de jogo de uma equipe e será em situação de treino que poderão ser exercitadas. Todas e não apenas algumas.

A este respeito, Garganta acrescenta que, se pretende que exista uma relação de reciprocidade e de interdependência entre treino e competição, então o centro do treino devera ser sempre o jogo. Santos corrobora esta opinião.

Assim, no sentido de comprovar a importância do jogo para o treino, Teodorescu afirma que a representação do conteúdo de jogo e do sistema de relação dos elementos que o compõe é extremamente importante uma vez que ao dizer respeito à lógica interior permite o aperfeiçoamento de uma forma constante quer do treino quer do jogo.

Dai que, segundo Garganta, a elevação do jogo a objeto de estudo se constitua como um passo importante, uma vez que o conhecimento da sua lógica terá implicações na forma de o trabalhar, ou seja, no treino.

A figura abaixo representa, esquematicamente, a importância de termos o jogo como objeto de estudo.

Pela analise da figura, podemos constatar que o jogo tem um papel importante na consecução da modelação. E o inverso será que acontece? A modelação terá importância na analise e construção de um jogo especifico?

Tendo por base a opinião de vários autores citados por Garganta, em 1997, a resposta é claramente sim, na medida em que a modelação tem servido fundamentalmente para configurar a lógica interna dos jogos desportivos coletivos com base na organização das ações de jogo.

Garganta entende ainda que esta pode ser utilizada para promover a identificação de relações entre os eventos de jogo e os fatores que afluem para a efetividade das equipes, ou seja, na configuração de padrões de jogo que esteja associado aos fatores de sucesso e insucesso nas equipes.

Assim a modelação do jogo de futebol de uma equipe, ira condicionar e orientar o processo de planejamento e de periodização no caminho da construção de um jogo para essa equipe. Neste caso, quanto maior for o grau de correspondência entre os modelos utilizados e o jogo melhores e mais eficazes serão os seus efeitos.

Face ao exposto, Santos entende que se torna evidente a necessidade de modelar o jogo, tornando-o único e especifico, quando comparado com o de outras equipes. Por conseguinte, perante estes fatos, pensamos poder constatar que existe uma relação de interdependência funcional entre o jogo e modelação na qual uma se constitui como importante na construção da outra (modelação na construção do jogo) e outra, na qual o objeto de estudo, o jogo, pode ser estudado através da modelação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

RIBEIRO, P. Do Modelo e Concepção de jogo à Análise da Performance no Futebol: O Treino enquanto indutor da Operacionalização de um modo de Jogar Específico. Estudo de caso na equipa sub-19 do Futebol Clube do Porto . 2008. 209 f. Monografia (Licenciatura em Desporto) - Faculdade de Ciência do Desporto e Educação Física, Universidade do Porto, Porto.

As três etapas do modelo de jogo

Partindo da idéia de que o processo de ensino/aprendizagem deve pautar-se pela eficácia, isto é, pela capacidade de produzir os efeitos pretendidos, torna-se imprescindível a existência de referencias que, para alem de possibilitarem a definição dos objetivos, orientem a seleção dos meios e métodos mais adequados para os alcançar.

Nesta medida, o processo de ensino do futebol deve reportar-se a um conjunto de princípios ou idéia (modelos), que expressam os aspectos a que se atribui maior importância e que se pretende ver cumpridos.

Na medida em que as ações de jogo ocorrem em contextos de elevada variabilidade, imprevisibilidade e aleatoriedade, aos jogadores é requerida uma permanente atitude estratégico-tatica. Na construção de tal atitude, a seleção do numero e qualidade das ações depende obviamente do conhecimento que o jogador tem do jogo. Quer isto dizer que a forma de atuação de um jogador esta fortemente condicionada pelos seus modelos de explicação, ou seja, pelo modo como ele concebe e percebe o jogo. São esses modelos que orientam as respectivas decisões, condicionando a organização da percepção, a compreensão das informações e a resposta motora.

Iso significa que a forma de um jogador entender o jogo e de nele se exprimir, depende de um fundo, ou de um metanivel, que constitui aquilo que podemos designar por modelo de jogo. As relações que o jogador estabelece entre este modelo e as situações que ocorrem no jogo orientam as respectivas decisões, condicionando a organização da percepção, a compreensão das informações e a resposta motora.

Deste modo, a dimensão estrategico-tatica emerge como território que confere ou retira sentido as tarefas dos jogadores no decurso do jogo.


De entre os referenciais a ter em conta, os princípios de jogo mais evoluído e as características reveladas pelos praticantes assumem uma dimensão particurlamente importante. Não se trata, obviamente, de copiar os modelos da pratica de alto nível, mas tão só estabelecer a imprescindível ligação entre diferenciados níveis de jogo, salvaguardando as devidas proporções. Impoe-se, assim, que se identifiquem os problemas mais pertinentes do jogo elementar e os indicados de qualidade do jogo elevado de alto nível, deles devendo decorrer a sistematização dos conteúdos, a definição dos objetivos e a seleção dos exercícios para ensinar e treinar esta modalidade desportiva.

Dos momentos iniciais da pratica do futebol ate aos mais elevados níveis, o jogo vai apresentando sucessivas configurações de referencia, que uma vez racionalizadas permitem construir os designados modelos de jogo. Neste sentido, a modelação do jogo permite fazer emergir problemas, determinar os objetivos de aprendizagem e constatar os progressos dos praticantes. A partir das perspectivas de Garganta e Grehaigne, de acordo com os comportamentos revelados pelos jogadores e pelas equipes, apresentamos, em síntese, três modelos de jogo, correspondentes ao nível de evolução dos indicadores: estruturação do espaço, comunicação na ação e relação com a bola:

Modelo Rudimentar:

Jogo estatico, não orientado, jogadores centrados sobre a bola, excesso de verbalização.

- Os jogadores perseguem indiscriminadamente a bola, aglutinando-se em torna dela.
- Dificuldades na relação com a bola (controle, proteção, condução etc).
- Utilização sistêmica da visão para olhar a bola, indisponibilidade para ler o jogo.
- Imobilismo dos jogadores sem bola e abuso da comunicação verbal.
- A circulação da bola não ee voluntaria.
- Sucessão de ações isoladas e explosivas sobre a bola.

Modelo Intermédio:

Jogo estático, orientado, jogadores centrados sobre os passes.

- Ocupação mais racional do espaço de jogo, embora pouco eficaz, porque estática.
- Existência de blocos constituídos por jogadores estáticos que trocam a bola entre si.
- Circulação da bola a periferia.
- A visão (central e periférica) vai sendo progressivamente libertada para ler o jogo.
- Todo o encadeamento de ações necessita de uma paragem (bola, jogador).
- Pouca incisão/penetrancia ofensiva.

Modelo Avançado:

Jogo dinâmico, orientado, jogadores centrados sobre a finalização (gol).

- Jogadores organizados em função de finalidades diferenciadas.
- Incisão/penetrancia ofensiva.
- O portador da bola joga de cabeça levantada para ler o jogo.
- Alternância do jogo em largura com o jogo em profundidade.
- As ações são organizadas em função dos alvos (balizas).
- As ações são encadeadas.
- Privilegia-se a comunicação motora em detrimento da verbal e da gestual.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

GARGANTA J. Competências no ensino e treino de jovens futebolistas. Lecturas Educación Física y Deportes (periódico on-line). 2002; 45. Disponível em: //www.efdeportes.com/efd45/ensino1.html> [2007 Mar 18].

domingo, 27 de dezembro de 2009

Conceito de Modelo

De acordo com Garganta "o sentido original da palavra modelo é parádeigma, que exprime o que se deve copiar, ou o que se impõe necessariamente, do mesmo modo que o molde ou a matriz impõe a matéria uma forma predeterminada.

Modelo pode ser considerado também uma representação simplificada da realidade.

Já Castelo entende que modelo é “(...) um ensaio, uma aproximação, uma maqueta mais ou menos abstrata que representa os aspectos fundamentais, apresentados de uma forma simplificada de uma ou varias situações, permitindo assim, uma melhor interpretação das variáveis que esta em si encerra".

A este propósito Le Moigne refere que modelos são criações antecipativas fundamentadas numa concepção da realidade que se pretende modelar.

Bompa refere que modelo é uma imitação, uma simulação da realidade.

Já para Faria o modelo representa, antes de mais, a concepção de jogo do treinador, ou seja, a forma como quer a sua equipe a jogar.

Outros conceitos de modelo:


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

RIBEIRO, P. Do Modelo e Concepção de jogo à Análise da Performance no Futebol: O Treino enquanto indutor da Operacionalização de um modo de Jogar Específico. Estudo de caso na equipa sub-19 do Futebol Clube do Porto . 2008. 209 f. Monografia (Licenciatura em Desporto) - Faculdade de Ciência do Desporto e Educação Física, Universidade do Porto, Porto.

Modelando o Complexo

Modelar sistemas complexos não é tarefa das mais fáceis. E o grau de complexidade se eleva bastante quando se trata da modelagem de ecossistemas – como mostra um livro pioneiro nessa área –, pois é preciso considerar interações entre seres vivos (animais, plantas, microrganismos etc.) e meio ambiente (chuvas, solos, nutrientes etc.). Nos sistemas complexos, muitos comportamentos são manifestações globais e não podem ser estudados ou entendidos através do reducionismo. Assim, é preciso olhar para os constituintes no contexto do todo.

De acordo com Stancey, os sistemas adaptativos complexos consistem num elevado numero de agentes inter-relacionados de modo não-linear, em que a ação de um agente pode provocar mais do que uma resposta por parte de outros agentes. Para alem disso, caracterizam-se pelo fato dos seus elementos identificarem regularidades na informação que obtêm, condensando-a posteriormente sob a forma de modelos.

Vários autores recorreram à expressão abordagem sistêmica para designarem as perspectivas e metodologias empregues na descrição e estudo dos sistemas, no sentido de tornar a ação mais eficaz. A abordagem sistêmica consiste portanto numa estratégia de modelação da realidade que compoita a utilização de certos instrumentos conceptuais bem definidos, conduzindo a modelação sistêmica.

A modelação sistêmica assenta em quatro categorias fundamentais: interação, globalidade, complexidade e organização. Neste sentido parece revelar-se profícua para defrontar fenômenos complexos como o jogo de futebol, porquanto estamos em presença de um processo: (1) Interativo, porque os jogadores que o constituem atuam numa relação de reciprocidade; (2) Global ou total, porque o valor das equipes pode ser maior ou menor do que a soma dos valores individuais dos jogadores que a constituem; (3) Complexo (porque existe uma profusão de relações entre os elementos em jogo); (4) Organizado, porque a sua estrutura e funcionalidade se configuram a partir das relações de cooperação e de oposição, estabelecidas no respeito por princípios e regras e em função de finalidades e objetivos.

O conhecimento, a identificação e a definição do jogo de futebol, passa pela utilização de modelos capazes de o explicar e interpretar. Trata-se de representar o conteúdo e a lógica do jogo a partir da integração das dimensões percebidas como essenciais do fenômeno.

Ora, como refere Le Moigne, se pretende construir a inteligibilidade de um sistema complexo, devemos modelá-lo. Modelar um sistema complexo é elaborar e conceber modelos, i.e,, construções simbólicas, com a ajuda das quais podemos definir projetos de ação, avaliar os seus processos e a sua eficácia. Mas modelá-lo num contexto que o permita adequar à especificidade do jogo de futebol e nesse sentido num contexto tático, de acordo com Garganta.

Para Grehaigne, não é possível compreender e explicar a complexidade dos JDC, enquanto sistema de transformação, senão apeando a modelos que integrem as noções de ordem, desordem, interação e organização.

O conceito de sistema, porque a complexidade, o paradoxal, o dia lógico, e por isso mesmo o incerto, afigura-se nuclear porque permite focalizar a analise nos aspectos da organização do jogo, consubstanciados num conjunto de regras de gestão e ação que derivam de um conceito ou idéia central, vulgarmente designada por modelo ou concepção de jogo.

Para Perl a modelação assume um papel extremamente importante para decifrar o presente de uma determinada situação e poder assim, dessa forma, tentar prever o futuro dessa mesma situação. No fundo, o que este autor quer dizer é que a modelação assume um papel de intervenção ativa para o regulamento dos comportamentos, por exemplo, de uma equipe, de forma a estar, no presente estar bem, e no futuro poder ainda estar melhor.

Corroboramos que se uma equipe ee considerada um sistema, a abordagem sistêmica aparenta ser a melhor solução para a modelar. Isto porque, desta forma se considerara sempre como um todo, mantendo as suas características funcionais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

GARGANTA, J; GREHAIGNE, J.F. Abordagem sistemica do jogo de futebol: moda ou necessidade? Revista Movimento, Porto Alegre, v. 6, n. 10, p. 40-50, 1999.

Garganta, J. M. (1997) Modelação Tática do Jogo de Futebol: estudo da organização da fase ofensiva em equipes de alto rendimento. 150 f. Tese (Doutorado). Faculdade de Ciência do Desporto e Educação Física, Universidade do Porto, Porto.

dos Anjos, João – Sistemas Complexos: A fronteira entre a ordem e o caos. PROJETO DESAFIOS DA FÍSICA [Em linha]. [Consult. a 20.12.2009]. Disponível em http://mesonpi.cat.cbpf.br/desafios/folder.php?id=5.

RIBEIRO, P. Do Modelo e Concepção de jogo à Análise da Performance no Futebol: O Treino enquanto indutor da Operacionalização de um modo de Jogar Específico. Estudo de caso na equipa sub-19 do Futebol Clube do Porto . 2008. 209 f. Monografia (Licenciatura em Desporto) - Faculdade de Ciência do Desporto e Educação Física, Universidade do Porto, Porto.