O animal satisfeito dorme (Guimarães Rosa)
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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

4-3-3, 11-0, 1-4-4-2 ou 1-1-1-1-1-1-1-1-1-1-1?

Abaixo, um bom artigo do professor Rodrigo Leitao:

Quais são as implicações práticas de dividir-se a plataforma de jogo em três linhas?

Comumente as plataformas de jogo são expressas numericamente por três linhas: a de defesa, a de meio-campo e a de ataque (nessa mesma ordem). Já discutimos aqui nesse espaço a utilização ou não do “1” (que representaria o goleiro) e suas interessantes implicações táticas.

Pois bem, hoje discutiremos a “divisão” da defesa, meio-campo e ataque em três linhas quando se representa numericamente a plataforma de jogo e as implicações disso nas estratégias defensivas das equipes.

Verticalmente, ao analisarmos o campo de jogo notaremos que quanto menor o número de linhas que orientam a lógica de uma equipe, maior o espaço vertical “descoberto” presente no campo. Por outro lado, ao analisarmos a distribuição horizontal, notaremos que o número menor de linhas faz com que elas possam ficar mais longas, o que em “largura” pode promover uma melhor ocupação do espaço de jogo.

Ainda que pouco explorada, a ocupação do espaço através de um número maior de linhas pode proporcionar possibilidades ímpares.

Por exemplo, como distinguir, sob a perspectiva da lógica defensiva (através do entendimento das linhas) um 2-1-4-1-2 de um 3-4-3?



O 2-1-4-1-2, alcança maior profundidade na ocupação do espaço de jogo, respeitando e mantendo os princípios estruturais de defesa “compactação” e “bloco”. No entanto em largura (ocupação horizontal) abrange áreas menores e ocasiona, em tese, maior região descoberta.

Já o 3-4-3 no caso apresentado, ao contrário, abrange horizontalmente uma área maior, mas em profundidade, mantendo-se “bloco” e “compactação”, tem a ocupação limitada.

Isso reflete então, no 2-1-4-1-2, especialmente numa marcação zonal, perspectivas interessantes para equipes que iniciam sua marcação próximas a área de defesa adversária. Cada linha garante pelo menos 10 metros a mais em distribuição espacial vertical “compacta” e em “bloco”. Então em tese cinco linhas possibilitariam uma marcação logo na saída de bola, garantindo um bloco compacto de aproximadamente 45 metros (10 metros de distância entre cada linha mais 5 metros de área de flutuação).

No 3-4-3, o reflexo das três linhas se dá especialmente na possibilidade de uma ocupação compacta vertical de menor tamanho, logo de menor profundidade. Isso significa que para uma marcação em zona, “atacar” a bola, próximo a defesa adversária pode criar áreas desprotegidas em regiões atrás da última linha de defesa da equipe (a linha de zagueiros).

Obviamente quando observamos o princípio estrutural defensivo do “equilíbrio” (que se refere a ocupação horizontal das regiões distantes da bola) defender em três linhas pode garantir mais eficiência do que em cinco. Isso não significa que não é possível manter o equilíbrio horizontal com um número maior de linhas, bem como que não é possível marcar em profundidade ao se jogar com três.

Claro também que ao se optar por mais linhas pode-se potencializar possibilidades que esse tipo de opção pode proporcionar, apostando-se até em um desequilíbrio horizontal proposital para que se efetive alguma estratégia. Da mesma forma, abrir mão de uma boa ação defensiva vertical (em profundidade) também pode fazer parte da estratégia para potencializar determinadas ações e situações defensivas.

Então, preparar uma equipe sob a orientação de mais ou de menos linhas requisitará estratégias que tirem vantagens desta orientação e que minimizem, de certa forma, os riscos que se pode correr por haver um número maior ou menor dessas linhas.

Por fim, o mais importante é que haja entendimento da complexidade, variáveis e nuances que a plataforma de jogo e o número de linhas podem trazer para o cumprimento efetivo de um modelo de jogo.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Esquema Tatico ou Sistema Tatico?

Nenhum dos dois. EE errado dizer sistema tatico ou de jogo, pelo motivo de que o futebol em si ee um sistema, e denominar a diposicao dos jogadores em campo causa uma ambiguidade negativa em torno da palavra.

Outro problema ee a referencia a esquema/sistema tatico. Se consideramos o futebol um desporto tatico, tecnico, fisico e mental, nao podemos considerar que a mera distribuicao dos jogadores em campo seja chamada exclusivamente de tatica, embora essa distribuicao seja uma tatica. O que quero dizer ee que se torna melhor a nomenclatura esquema/sistema de jogo, pois remete a distribuicao da equipe no campo de jogo de forma "imparcial".

Ja tendo negado a opcao pelo chamamento da distribuicao "estatica" dos jogadores em campo de sistema de jogo, fica a pergunta qual a melhor nomenclatura? Bem, considero adequado nomenclaturas como esquema, plataforma, distribuicao, disposicao, organizacao etc de jogo.

Ja tendo uma adequada nomenclatura poderiamos conceituar a plataforma (chamarei assim) de jogo. A plataforma de jogo seria a referência espacial estatica dos jogadores no terreno de jogo. Em suma, a plataforma ee apenas uma das referencias para a organizacao da equipe.Todas as equipes apresentam uma plataforma de jogo quando estao sem bola (plataforma de jogo matriz) e outra plataforma de jogo quando estao com bola, e as perdas e recuperacoes de bola nao representam uma variacao tatica, pois ee obrigatorio essas plataformas diferentes nos momentos de jogo ofensivo e defensivo.

A plataforma de jogo em si nao ee melhor ou pior ou ofensiva ou ofensiva, tudo vai depender dos principios e dinamicas que cada equipe ira criar com base na potencializacao da sua plataforma. Isto e, todas as plataformas podem aplicar pressing alto, ter um ataque com boa amplitude ou qualquer outra coisa, basta preconizar a operacionalizacao desses principios e dinamicas. EE claro que a geometria da ocupacao dos espacos pode acentuar desequilíbrios maiores ou menores quando em confronto com outra geometria específica ou que determinadas geometrias facilitem determinados comportamentos em relacao a outras geometrias.

4-2-4 Defensivo e 3-6-1 Ofensivo?

A imprensa e as pessoas, de um modo geral, costumam achar que o que define a ofensividade ou defensividade de uma equipe é a sua plataforma de jogo. Um erro que pode custar muito caro ao clube, torcida e treinador. Num dos jogos entre Internacional e Fluminense nesse ano, um amigo, torcedor do Fluminense, criticou pesadamente o Internacional, até então brigando pelo titulo, por ter entrado contra o Fluminense, até então quase rebaixado, usando um 3-6-1, plataforma o qual, segundo meu amigo, era muito defensiva para se jogar, pois o Internacional estava muito bem na tabela enquanto o Fluminense era um saco de pancadas.

Poderiamos botar algumas definições do que seria plataforma de jogo aqui, mas todas diriam o mesmo, então, podemos ficar com uma definição de que plataforma de jogo é a disposição (ocupação) dos jogadores no campo de jogo, é preciso entender também que existe a plataforma de jogo quando o time esta com a bola e a plataforma de jogo quando o time esta sem a bola, a plataforma de jogo matriz (base,modelo) ocorre quando o time esta sem a posse de bola, além disso não podemos considerar que exista uma variação na plataforma de jogo quando o time esta com ou sem bola, a plataforma "oficial" de jogo será sempre a matriz.

Precisa-se ter em mente que a plataforma de jogo é apenas a ocupação espacial por parte de jogadores e que portanto isso é uma coisa meramente estática, o que irá dar vida a essa plataforma de jogo é o modelo de jogo operacionalizado por cada equipe, dessa forma, várias equipes poderão jogar no 4-4-2 atuando com dinâmicas completamente diferentes, vou além, mesmo que uma equipe "copie" o modelo e plataforma de jogo de outra equipe, o time que copiou jamais conseguirá um jogar igual ao da equipe copiada, pois existem uma série de motivos que não são copiaveis, como a caracteristica dos jogadores, por exemplo.

Se entendemos que a plataforma é uma coisa "morta" e que o que dará "vida" a ela são os jogadores e o modelo de jogo executado, fica fácil compreender que não existe plataforma ofensiva ou defensiva nem plataforma melhor ou pior.

O que determinará se um jogar é ofensivo ou defensivo, se bem que isso é uma coisa bem subjetiva e se relaciona reciprocamente com a estrátegia preconizada, será o número de jogadores que participam das ações ofensivas (ou ainda quantos jogadores ficam à frente da linha da bola em uma situação de ataque) e o nosso modelo de jogo, se bem que o número de jogadores que participam das ações ofensivas esta relacionada ao nosso M.J. mas de qualquer forma é bom separar para ser mais claro. Por exemplo, se um time que joga no 4-2-4 preconizar somente as transições ofensivas como meio de marcar gol, a imprensa, provavelmente, dirá que é uma equipe pouca ofensiva e que joga no contra-ataque, contudo, se num 3-6-1 o modelo preconizado seja atacar em bloco, mantendo sua estrutura no campo ofensivo, circulação de bola curta com viradas longas e manutenção de posse de bola, ataque apoiado, amplia e aprofunda o campo etc, a imprensa diria que esse 3-6-1 é um esquema muito ofensivo apesar de usar 3 zagueiros e apenas 1 atacante. Ou seja, plataforma não é nada sem modelo de jogo, bem como não se pode criticar certos modelos de jogo se eles servem numa determinada lógica contextual.