O animal satisfeito dorme (Guimarães Rosa)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O processo que leva a construção de uma forma de jogar na mente dos jogadores. Adquirindo o hábito de jogar de uma determinada forma...

Partindo então do pressuposto que um futebol, deve expressar um conjunto de regularidades comportamentais, dentro do universo caótico que representa o jogo, e que essas regularidades são consequência da assimilação dos princípios que caracterizam um determinado tipo de jogar, o treino será o espaço por excelência para a sua construção, porque os exercicios de treino são a linguagem de comunicação com os jogadores. Nesse sentido, Frade, que é considerado o mentor de um modelo de treino denominado Periodização Tática e que, na sua essência, reclama a acentuação permanente do respeito pelos principios que singularizam a forma de jogar a que o treinador aspira, seja ela qual for, considera que os jogadores deverão ser confrontados com esses seus principios e sub-principios servindo-se de uma lógica construtivista concreta, que tem a ver com um determinado conjunto concreto de interações sujeito-objeto (jogador-principios).

A relação entre estas duas partes, sujeito e objeto dá-se através de um processo de dupla face, que um dos percursores das teorias construtivistas, Piaget, denominou de adaptação e que compreende dois momentos: a assimilação e a acomodação. Por assimilação entende-se as ações que o individuo irá tomar irá tomar para poder internalizar o objeto, interpretando-o de forma a poder encaixá-lo nas suas estruturas cognitivas. A acomodação é o momento em que o sujeito altera as suas estruturas cognitivas para melhor compreender o objeto que o perturba. Destas sucessivas e permanentes relações entre assimilação e acomodação (não necessariamente nesta ordem) o individuo vai-se adaptando ao meio externo (cultura de jogo) através de uminterminável processo de desenvolvimento cognitivo. Por ser um processo permnente, e por estar sempre em desenvolvimento é que esta teoria foi denominada de construtivismo, dando-se a ideia de que novos niveis de conhecimento, no caso do futebol conhecimentos especificos, estão sendo indefinidamente construidos através das interações entre o sujeito e o meio. Como refere Le Moigne o construtivismo constrói-se no ato de se exercer.

Esta teoria, assenta então no pressuposto de que todo e qualquer desenvolvimento cognitivo só será efetivo se for baseado numa interação (treino) muito forte (sistematizada) entre o sujeito e o objeto, aquilo a que Le Moigne chamou uma modelização sistémica que revele suficientemente a inteligibilidade dos fenómenos para que se possa permitir a deliberação raciocinada, a invenção e a avaliação dos seus projetos de ação.

Em relação ao aspecto qualitativo da interação/treino, importa salientar a posição de Manno que opina que os fenómenos de adaptação que estão na base da elevação do rendimento estão ligados a especificidade do estimulo (treino). Assim sendo, se o jogo é complexo, o treino deverá também sê-lo como defende Faria ao mencionar que a Periodização Tática/Modelização Sistémica obriga a uma decomposição do fenómeno jogo/complexidade, articulando-o em ações também elas complexas, ações comportamentais de uma determinada forma de jogar.

Para além disso, Piaget considerou imprescindivel uma atitude do objeto que perturbe as estruturas do sujeito, ou seja, a sua organização biol[ogica e sociocultural. Caso contrário, não tentará acomodar-se a situação, comprometendo a gutura assimilação do objeto (modelo de jogo) que dará origem as sucessivas adaptações do sujeito ao meio (cultura de jogo). Mas como há pouco se referia, a lógica que tem de estar subjacente para que ele se construa tem de ser muito concreta, isto é, tem de ser especifica dos padrões comportamentais que se entende indispensaveis para se jogar de determinada forma. Daí que Mourinho refira, a propósito do seu processo de treino que, trabalhamos exclusivamente as situações de jogo que me interessam, fazemos a sua distribuição semanal de acordo com nossa lógica de recuperação, treino e competição, progressividade e alternância.

Embora a concepção construtivista carecesse, aquando da sua irrupção, de uma fundamentação neuro-biológica precisa, ela encontra agora nos recentes avanços na área das neurociências, em autores como Goleman, Damásio e Jensen; Sirigu e Lafarque e Jacob alguns dados que lhe proporcionam maior consistência, como iremos ver mais a frente.

Daí que, numa concepção de treino que coloca no jogo, nos principios, na inteligibilidade, o âmago de todo o processo, ela se constitua como uma espécie de âncora preciosa para a operacionalização, para dar uma maior objetividade as coisas do processo.

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