O animal satisfeito dorme (Guimarães Rosa)

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Acoplamento Estrutural

O conceito de acoplamento estrutural especifica que nao pode haver nenhuma contribuicao do meio capaz de manter o patrimonio de autopoiesis de um sistema. O meio so pode influir causalmente em um sistema no plano da destruicao, e nao no sentido da determinacao de seus estados internos.

As causalidades que podem ser observadas na relacao entre sistema e meio situam-se exclusivamente no plano dos acoplamentos estruturais - o que significa dizer que estes devem ser compativeis com a autonomia do sistema. Tal tipo de conceituacao reafirma o ja especificado, em aulas anteriores, acerca do significado preciso do conceito de autopoiesis: um sistema nao pode ser mais ou menos autonomo, e mais ou menos autopoietico. Os acoplamentos estruturais podem admitir uma diversidade muito grande de formas, desde que sejam compativeis com a autopoiesis. A enfase reside, portanto, nessa compatibilidade.

Para introduzir o conceito de acoplamento estrutural, Maturana tece dois tipos de consideracoes em relacao ao sistema:

a) o sistema ee uma organizacao autopoietica. O importante aqui ee que o conceito de autopoiesis abre um espectro relativamente amplo para o desenvolvimento de estruturas, significando, portanto, que no conceito de autopoiesis nao existe um juizo previo acerca das estruturas que deverao prevalecer. Maturana distingue, assim, entre organizacao autopoietica e estruturas de um sistema.

Na sociologia, nao ee possivel empregar, nesse contexto, o termo organizacao, pois ele designa um fenomeno social muito especifico.

Para efeito sociologico, bastaria dizer que se trata de uma reproducao autopoietica.

b) A organizacao autopoietica contem estruturas muito diversas, dependendo do tipo de sistema: aves, peixes, vermes, bacterias...

Consequentemente, o desenvolvimento de diversas estruturas ee possivel, desde que se conserve a autopoiesis; pois, do contrario, cessaria a vida.

Como se pode observar, a diferenciacao introduzida por Maturana para basear o conceito de acoplamento estrutural distingue dois planos: o da autopoiesis, no qual se da a conservacao do sistema; e o do acoplamento entre sistema e meio, referido exclusivamente as estruturas, e aquilo que, no meio, possa ser relevante para as estruturas.

Um exemplo de acoplamento estrutural (que funciona sempre, e imperceptivelmente) ee a musculatura dos organismos, que ee condizente com a forca da gravidade, embora restrita a ambitos de possibilidades de movimentos. No exemplo, ee viavel avaliar como podem existir diversos tipos de acoplamento estrutural, dependendo do tipo de organismo, sem haver interferencia com a autopoiesis do sistema.

O acoplamento estrutural exclui, portanto, que dados existentes no meio possam definir, conforme as proprias estruturas, o que acontece no sistema. Maturana diria que o acoplamento estrutural se situa de modo ortogonal em relacao a autodeterminacao do sistema; ele nao determina o que sucede no sistema, embora deva estar pressuposto, ja que, do contrario, a autopoiesis se deteria e o sistema deixaria de existir. Nesse sentido, todos os sistemas estao adaptados ao seu meio (ou nao existiriam), ainda que dentro do raio de acao que lhes ee conferido, eles tenham todas as possibilidades de se comportar de um modo nao adaptado. Para verificar o alcance dessas reflexoes, ee suficiente considerar os problemas ecologicos da sociedade moderna.

O conceito de acoplamento, assim como o de forma, mostra dois lados: a) o acoplamento nao esta ajustado a totalidade do meio, mas somente a uma parte escolhida de maneira altamente seletiva; consequentemente, b) apenas um recorte efetuado no meio esta acoplado estruturalmente ao sistema, e muito fica de fora, influindo de forma destrutiva no sistema.

No plano dos acoplamentos estruturais, ha possibilidades armazenadas (ruidos) no meio, que podem ser transformadas pelo sistema; portanto, mediante o acoplamento estrutural, o sistema desenvolve, por um lado, um campo de indiferenca e, por outro, faz com que haja uma canalizacao de causalidade que produz efeitos que sao aproveitados pelo sistema.

Nunca se deve perder de vista que o acoplamento estrutural ee compativel com a autopoiesis, e que, por conseguinte, ha possibilidades de influir no sistema, desde que nao se atente contra a autopoiesis. Isso pode ser formulado de modo inverso: a linha de desmarcacao que divide o meio, entre aquilo que estimula ao sistema e aquilo que nao o estimula - e que se realiza mediante o acoplamento estrutural -, tende a reduzir as relacoes relevantes entre sistema e meio a um ambito estreito de influencia. Apenas desse modo, um sistema pode transformar as irritacoes em causalidades.

O sistema pode reagir a irritacoes e estimulos (perturbacoes, na linguagem de Maturana), nao quando tudo pode influir no sistema, mas somente quando existem padroes altamente seletivos. Ou seja, o sistema reage apenas quando pode processar informacao e transforma-la em estrutura. As irritacoes surgem de uma confrontacao interna (nao especificada, num primeiro momento) entre eventos do sistema e possibilidades proprias, que consistem, antes de tudo, em estruturas estabilizadas, expectativas. Portanto, nao existe nenhuma irritacao no meio do sistema, assim como nao existe transfer de irritacao do meio ao sistema. Trata-se sempre de uma construcao propria do sistema; ee sempre uma autoirritacao (naturalmente posterior a influxos provenientes do meio).

EE possivel dizer, entao, que a selecao de acontecimentos ocorridos no meio - e capazes de produzir efeitos no sistema - ee condicao de possibilidade para que o sistema, com esse espectro tao seletivamente depurado, possa empreender algo. Ou, falando de maneira abstrata: a reducao de complexidade ee condicao para o aumento de complexidade.

Alguns exemplos auxiliam a visualizar esse preceito teorico: o acoplamento que o cerebro realiza com o meio ambiente ocorre atraves dos sentidos da visao e dos ouvidos, os quais, por sua vez, tem possibilidades muito reduzidas de contato com o meio (estreita gama de cores, para a visao; cota de decibeis, para os ouvidos). Gracas a essa especificacao, o sistema nao esta sobrecarregado pelo exterior, e pode processar efeitos que levam ao surgimento de estruturas complexas no cerebro. Portanto, a um espectro reduzido para fora corresponde uma enorme capacidade de criacao de estrutura para dentro: elevada capacidade de avaliacao, a partir da selecao da propria irritabilidade de que o sistema dispoe. O mecanismo do cerebro acontece em total acordo com o encerramento operativo, significando, portanto, que o proprio sistema nao possa se colocar em contato com o meio ambiente, a nao ser que recorra a processos fotoquimicos e de ondas acusticas para produzir informacao mediante capacidades proprias, que nao podem ser importadas do meio.

Um observador pode ser capaz de estabelecer correlacoes entre sistema e meio, embora estas dependam, assim, exclusivamente da posicao do observador.

O exemplo do cerebro nao contem nenhum dado novo, expondo simplesmente o que ja foi confirmado na pesquisa neurofisiologica. Entretanto, o importante no campo da sociologia seria a possibilidade de fazer reflexoes equivalentes, no sentido de se indagar como a comunicacao e a consciencia se acoplam estruturalmente, ja que se trata, na realidade, de dois sistemas autopoieticos. O processo de resposta deve levar em conta, primeiramente, que consciencia e comunicacao nao podem existir uma sem a outra, e que, para existir, devem estar coordenadas mediante um acoplamento estrutural.

Nao ee possivel imaginar que a consciencia tivesse surgido no processo da evolucao sem ter havido comunicacao; assim como tambem seria impossivel que pudesse haver comunicacao de conteudos significativos sem ter havido consciencia. Nesse sentido, toda comunicacao esta estruturalmente acoplada a consciencia; sem consciencia, a comunicacao ee impossivel. Entretanto, a consciencia nao ee um sujeito da comunicacao, e tampouco, em qualquer outro sentido, o substrato da comunicacao. Para tanto, devemos abandonar a metafora classica, segundo a qual a comunicacao ee uma especie de transferencia de conteudos semanticos de um sistema psiquico - que ja os possui - a outros.

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