O animal satisfeito dorme (Guimarães Rosa)

sábado, 20 de março de 2010

Treinos analíticos, avaliações analíticas, e o desempenho de jogo: que caminho seguir?

Gostaria de pedir licenca ao prof. Rodrigo Leitao pois hoje vou reproduzir novamente a sua coluna, na Universidade do Futebol. O assunto de hoje ee muito interessante e foi bem tratado na coluna. Abaixo, o texto:

Olhar um fenômeno com os óculos da complexidade requer, acima de tudo, que os olhos estejam abertos, e as lentes, transparentes...

Os treinos analíticos têm maioridade e presença quase que certa nas atividades de treinamento de equipes de futebol (profissionais e de categorias de formação).

Ao longo da última década e meia, a contestação a esse tipo de treino (seja ele para trabalhar um “fundamento técnico” qualquer ou uma capacidade biomotora específica), tem crescido em boa parte do mundo, especialmente onde os estudos científicos tentam avançar barreiras alicerçadas em paradigmas “tradicionais”.

Algumas pesquisas têm buscado desmistificar a idéia de que o treinamento analítico – treino descontextualizado do jogar – se correlaciona com o aperfeiçoamento das habilidades técnicas que se expressam em ambiente de jogo.

Pois bem. Hoje trago alguns dados e informações interessantes – já apresentadas em outro fórum, com o devido rigor e estrutura técnica requisitada por ele – que podem ilustrar a resposta para uma questão interessante:

Será que um grupo de jogadores com melhores aproveitamentos em testes de precisão, e de força aplicada ao passe (testes analíticos), tem também melhor aproveitamento nesse fundamento quando submetido a situação de jogo?

Tentando responder em parte, a essa pergunta, apresento um “experimento prático” interessante, realizado com jogadores de futebol sub-17. Nesse experimento, 24 jogadores foram divididos aleatoriamente (ou para os que preferem; randomicamente), através de sorteio, em três grupos de oito jogadores cada (grupos “A”, “B”, “C”). Esses grupos foram submetidos a cinco sessões de treino de futebol (que faziam parte do planejamento de treinos da equipe, ao longo do ano competitivo), com jogos em espaço reduzido e com regras adaptadas.

As atividades de treino foram programadas para que houvesse jogos entre jogadores do mesmo grupo (3 x 3 e 4 x 4), e também entre grupos (6 x 6 e 8 x 8).

Para cada um dos jogos, foi realizado um “scout” detalhado de passes certos e errados, jogador por jogador, equipe por equipe, grupo por grupo.
Nas cinco sessões de treino, foram realizados 12 jogos adaptados com objetivo de desenvolver um modelo de jogo específico.

Nessas 12 atividades, o volume total de passes variou significantemente nos jogos, mas o percentual de passes errados por grupo, não (em média 25,2% para o grupo “A”, 25,0% para o grupo “B” e 24,3% para o grupo “C”)!

Os grupos “A”, “B” e “C”, eram componentes de uma equipe que no jogo formal apresentava em média, 15% de passes errados por partida (contando aí, passes, lançamentos e cruzamentos). Nos jogos adaptados, como vimos, não mostraram diferenças significantes entre eles.

Mas é agora que vem a melhor parte da história. Os jogadores desses grupos foram submetidos a três testes analíticos (teste 1, teste 2 e teste 3) para avaliar a precisão e “força” do passe de seus jogadores.

O teste 1 dava ao jogador a possibilidade de realizar 10 passes, a partir de uma marca a 15 metros de distância de um gol com as medidas oficiais (dividido em zonas de importância), com o objetivo de acertar pelo menos uma vez cada uma delas.

O teste 2 dava ao jogador a possibilidade de realizar 10 passes, a partir de uma marca de 20 metros, com objetivo de derrubar cones, com massas diferentes, fixados no chão.

O teste 3 dava ao jogador a possibilidade de realizar 10 passes, a partir de marcas com distâncias variadas (10, 15, 20, 25 e 30 metros), com objetivo de acertar um único alvo demarcado com uma estaca fixada no campo de jogo.

Todos os testes foram realizados no campo de jogo, com jogadores devidamente trajados, respeitando as regras que norteiam o futebol.

Conforme podemos observar na tabela de resultados (referentes a porcentagem de passes errados nos testes analíticos), e sem que necessitemos nos aprofundar nos procedimentos “estatístico-metodológicos” do “experimento” (assunto para outro fórum), o número de passes errados nas atividades analíticas não se correlacionou diretamente com o resultado observado de passes errados obtidos em contexto de jogo (para nenhum dos testes!).

Notemos que em situações de jogo, os três grupos quase não se diferenciaram ou se destacaram pela porcentagem de passes errados. Poderíamos esperar, caso houvesse correlação boa e direta entre os passes realizados com caráter analítico e os de jogo, que a diferença entre os grupos respeitasse sistematicamente a mesma variação tanto no exercício analítico, quanto no jogo.

Podemos observar que não foi isso que aconteceu, ou seja, os melhores resultados nos testes analíticos não foram necessariamente os melhores resultados em situação real de jogo, e vice-versa.

Outros resultados e procedimentos poderiam ser explorados nesse espaço também, para, apimentando mais ainda a discussão que estas informações podem gerar, mostrar que o treinamento através de exercícios analíticos melhora, tão e somente, o desempenho e resultados de avaliações, igualmente analíticas.

A melhora da “performance” de jogo deve ocorrer através de jogos. E não se trata do jogo pelo jogo. É necessário que em sua aplicação e execução, esses jogos gerem sobrecarga suficiente para provocar “respostas adaptativas” físicas, técnicas, táticas, psicológicas, de maneira integral, integrada e totalmente complexa – e isso requer profundo conhecimento a respeito do processo que orienta a aplicação seqüencial desses jogos.

Os exercícios analíticos, contudo não devem ser “aposentados”. Além das muitas décadas de “serviços prestados” (e especialmente por causa disto), têm um simbolismo com os jogadores, que não pode ser desconsiderado ou deixado de lado.

Olhar um fenômeno com os óculos da complexidade requer, acima de tudo, que os olhos estejam abertos, e as lentes, transparentes...

5 comentários:

Bruno Pereira disse...

Fantástico!

A coluna do Prof. Rodrigo Leitão é de "leitura obrigatória"

Acho interessante começarem a fazer investigação para tentar provar aquilo que a teoria e metodologia de treino procura "implementar".

Acho também importante um dos ultimos paragrafos, em que se fala na importância de utilizar de vez em quando exercícios descontextualizados.

Apesar do transfer para o jogo ser minimo, no que diz respeito a motivação, auto-confiança dos jogadores e outras particularidades dessa ordem... pode ser importante.

Como alias... qualquer coisa que se faça no treino, desde que bem argumentada, pode ser valida.

Abraço e parabéns pelo excelente blog!

Luis Esteves disse...

Fala professor
como esta?

Como disse antes, e já foi citado no texto acima, o futebol é complexo e tem que ser treinado de forma complexa, poré, não somos máquina, cansamos e nada pior que o cansaço mental.

O analítico é bom para descansar mentalmente, enquanto fisiologicamente se adapta a determinadas situações, é útil, e não só como foi citado, por os jogadores acreditarem, eles acreditam é porque elevam seu grau de confiança, repito, se você ver treinos do Mourinho, José Guilherme, verá situações em grupo, realizadas de forma analítica, mas jamais verá essa vertente se sobressair sobre a Periodização Tática.

Isto é o feeling do treinador, dentro dos dia do morfociclo que irá definir, os exercícios são curtos, e entre elas para recuperar usa-se exercícios de sincronismo, apoiados no analítico, principalmente na terça feira.

Um grande abraço
Parabéns!

João Henrique T.L.C disse...

Inicialmente, gostaria de agradecer (para mim ee uma honra) os professores Luis e Bruno por estarem frequentando o blog e sempre se dispondo a ensinar e trocar ideias.

Acredito que os professores mostraram dois motivos extremamente pertinentes para o uso do exercicio analitico:
O professor Bruno, nos diz que o exercicio analitico, apesar de ser analitico, se tiver um um objetivo e direcionamento corretos, por parte, do treinador, pode ser positivo ao treino e ao jogar. Naquele exemplo que voce colocou no teu blog Bruno (ultimo video), um simples jogo de "bobinho" poderia ser direcionado para o cumprimento de certos principios ou outros, o que tambem traz ganho a equipe. Ja o professor Luis nos falou do uso do exercicio analitico para recuperar da fadiga mental, que ee bem pior que a fadiga fisica.

Enfim, os professores mudaram meu modo de enxergar os exercicios analiticos. Embora em seus blogs ja falassem sobre essas ideias, a explanacao, novamente, aqui no blog me deu um in site.

Um abraco e muito obrigado pela colaboracao dos professores.

Bruno Pereira disse...

Fundamental o que Luís Esteves disse,

Uma das maiores preocupações de jogar de 3 em 3 dias ( por exemplo ) é a fadiga mental. No que diz respeito a fadiga "quimica" é esperavel que se consiga recuperar rapidamente, agora... será que conseguimos voltar a manter a concentração durante 90' tão pouco tempo depois?

Será que conseguimos decidir depressa e bem, tendo em conta o que se passa a nossa volta, com tão pouco tempo de recuperação ?

É ai que entra o jogo de adequar a complexidade dos exercícios ao microciclo semanal.

Não quero com isto dizer que nos primeiros dias da semana se devem utilizar exercícios analiticos, mas é principalmente nessa altura que devemos reduzir a complexidade, para que a informação que está no contexto, seja mais reduzida e torne mais facil a decisão.

Exercícios analiticos e ludico recreativos são boas hipoteses para ajudar a recuperação do sistema nervoso central.

Mas repare, até num "andebol com golos de cabeça", podemos utilizar os principios do nosso Jogar, podemos perfeitamente defender a zona num andebol com golos de cabeça, ou utilizar as combinações habituais em jogos de bitoque rugby.

Jogos esses que, não são futebol, mas que podem ter elementos que sejam muito aproximados, com um nivel de complexidade mais reduzido para os atletas.

João Henrique T.L.C disse...

No que diz respeito ao treino, o que tambem poderia ajudar para a recuperacao mental dos jogadores ee o proprio exercicio com uma menor complexidade, sem oposicao, por exemplo, o que o torna quase um analitico

Nessa questao do cansaco mental no treino e principalmente pos-jogo, poderiamos pensar tambem, em nivel de equipes profissionais, devido a alta carga de jogos provenientes de competicoes, a adocao da rotatividade.

E indo para o jogo, poderiamos pensar naquele conceito de descansar com bola, isto ee, a propria equipe se "poupando" durante o jogo.

Ou seja, temos algumas maneiras para tentar combater esse cansaco do sistema nervoso, alem ee claro, como os professores falaram, o uso do exercicio analitico e ludicos.

Professor Bruno, realmente o proprio exercicio de outros esportes tambem se torna um interessante exercicio analitico, talvez ate mais interessante para os jogadores.

Um abraco!